Entrevistas

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Os primeiros desenhos de Fabio Dudas recriavam os heróis dos quadrinhos nos cadernos da escola. Sua primeira experiência com a pintura em óleo sobre tela foi aos 16 anos, pouco depois ingressou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, onde cursou o bacharelado em Pintura. Desenhou figurinos para balés e peças de teatro e ministrou palestras sobre a arte figurativa. Sua obra se baseia na figuração da realidade e ficção, em memórias de infância, interpretação do cotidiano e imaginação. 

 

O desenho, a pintura, tudo é elaboração e ação, não só técnica.
 
Você é artista plástico, ilustrador e músico. Como surgiu o interesse por estas áreas e como virou profissão?
Nunca planejei ser artista plástico, acabei me descobrindo pintor quando cursei a Escola de Belas Artes do Paraná, apesar de ter uma facilidade com pintura e desenho desde a infância. Quando entrei para a faculdade, meu sonho era ser desenhista em quadrinho, mas depois de uns dois anos estudando, percebi o quanto da minha própria natureza dizia o que eu era e o que deveria fazer. Parte disso tudo veio da intuição, mas ficou óbvio para mim que não poderia seguir outro caminho. Hoje meu trabalho se desdobra em diferentes suportes: pintura, xilogravura e ilustração.
 

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A figura feminina é muito presente no seu trabalho, conte um pouco sobre essa característica presente nas suas obras. 
Quando me perguntam o motivo de pintar figuras femininas e principalmente meninas, respondo que é pela minha criação com quatro irmãs. Mas há muito mais do que isso, ultimamente tenho pensado muito na infância de meninas de diferentes classes sociais, nas crianças desaparecidas, no que se revela no olhar da própria criança. Lembro sempre do Chico Buarque com suas músicas para diferentes mulheres e meninas, ou mesmo se colocando no lugar delas. Ao mesmo tempo não há uma resposta clara para a pergunta, pois o que penso sobre meu trabalho muitas vezes é percebido de outra maneira por quem o vê.
 
A xilogravura teve grande influência sobre a arte, por ser uma das primeiras técnicas e no Brasil é mais presente no Nordeste. Como surgiu o seu interesse por essa técnica?
Sempre admirei a técnica da xilogravura. O uso do preto e branco, o trabalho de entalhar a madeira, os veios e marcas que a madeira proporciona na impressão e o trabalho manual e artesanal me motivam. A gravura do Nordeste é muito rica e tem uma linguagem própria, e é muito tentador seguir esta linguagem, mas tenho focado em algo que possa dialogar com meu trabalho em pintura. O interessante é que tenho lembrado muito mais do trabalho do artista alemão Anselm Kiefer e do brasileiro Oswaldo Goeldi do que da gravura nordestina. Nos últimos meses tenho percebido o quanto o exercício, quase diário, de trabalhar a gravura me levou a outros caminhos na minha pintura, e isso é algo muito estimulante.
 

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Tenho percebido o quanto o exercício de trabalhar a gravura me levou a outros caminhos na pintura.
Você também é músico, para você existe um paralelo entre a música e as artes visuais, elas se complementam? 
Eu não tenho formação musical, fiz aulas de violão quando era mais jovem e depois de anos comecei a explorar as possibilidades com softwares e uma guitarra, como uma outra forma de expressão muito experimental. Comecei a gravar o que fazia e desde 2007 disponibilizo todo o material para download livre no blog fritzlounge.blogspot.com. Criei na época, um perfil no myspace, que chegou a ter mais de 50 mil visualizações, na versão antiga do site. O projeto se chama The Baltucz Band e a ideia foi criar dois personagens virtuais para formar a banda, um garoto e um gato. A música para mim é um hobby e apesar de gostar de gravar nas horas vagas, minha intenção é fazer disso mais um meio de expressão, que o desenho e a pintura não alcançam. Ou, linguagens podem conversar: quem sabe posso criar uma instalação sonora no futuro! E é claro, a música me inspira muito. Em casa, no ateliê, sempre estou ouvindo música.
 
Você tem diversas habilidades profissionais, essa é uma tendência, que o profissional seja cada vez mais dinâmico?
Nasci numa cidade no interior do Paraná e quando era pequeno minha madrinha sempre me dizia que era muito importante saber diversas profissões. Em sua casa, além do ateliê de costura, que era sua fonte de renda, se organizavam cursos de pintura em tecido, tricô, crochê, corte e costura. Isso foi muito importante para despertar minha curiosidade para trabalhos manuais e procurar saber mais sobre o que me motiva. Hoje tenho na bagagem um aprendizado em publicidade e design, por ter passado anos trabalhando na área sem a formação específica, munido apenas da curiosidade e vontade de aprender. Vejo essa multidisciplinaridade como algo natural nos mais jovens. Muitas vezes seguir a intuição e saber a real motivação não é algo que vem de forma tão simples e fácil, por isso aposto na importância da experimentação, de correr riscos, de aprender com o processo. 
 
Onde o seu trabalho está disponível hoje? Exposições, à venda na internet, etc. 
Sou representado pela Cor Galeria, em Florianópolis (no momento, em transição de endereço físico). Mantenho uma página no Facebook, onde mostro a produção de minhas obras e também as comercializo. Tenho participado de feiras e espaços expositivos, além de estar aberto a convites para parcerias com profissionais e galerias.
 
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Conte um pouco sobre a Chouette, marca que você é sócio.
A Chouette nasceu de dois sonhos: criar para crianças e aprender a costurar. Passei minha infância vendo minha madrinha e irmãs costurarem, mas nunca tinha costurado. Há alguns anos eu e minha mulher e sócia, a designer e jornalista Paula Albuquerque, fizemos um curso técnico de costura e começamos a produzir bichos de tecido para crianças, além de canecas e artigos de papelaria com minhas ilustrações no início da marca. Hoje a Chouette é um estúdio de design e ilustração para a infância, onde criamos projetos para livros infantojuvenis, murais decorativos, entre outros serviços pensados para os pequenos. Para conhecer esses trabalhos é só acessar o chouette.com.br. (Em tempo: chouette, em francês, quer dizer coruja. Mas é também uma gíria para "bacana", "legal". C'est chouette!)
 
Ser artista visual é... 
Procurar se desenvolver como um todo. Temos possibilidades imensas com todo nosso potencial, e a arte transforma. Penso muito no exercício do pensamento como parte fundamental para essa transformação, pois tudo acontece em nossas mentes. O desenho, a pintura, tudo é elaboração e ação, não só técnica. Me sinto ligado à ideia do budismo sobre a ideia de iluminação, o exercício da respiração e meditação para alcançar a consciência plena. Para mim, iluminar-se do conhecimento de si e do mundo, através da arte, é estar mais preparado para o presente e o futuro. A arte reflete em todos os aspectos de nossas vidas, na literatura, na pintura, na dança, na música… E é democrática, ela toca a todos, e está aí para todos, aliás, crescemos com uma percepção do que nos emociona, do que esteticamente é bom ou não. Nesse sentido, educação é irmã da arte, e é nosso papel contribuir para que as gerações futuras tenham a experiência sensível e artística cada vez mais aflorada e desenvolvida.
 
 
A arte reflete em todos os aspectos de nossa vidas, na literatura, na pintura, na dança, na música…
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Fonte: Fabio Dudas
Fotos: Divulgação
 
 
 
 
 
 
 

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