Entrevistas

Fernando Velazquez 1

Fernando Velázquez é artista transdisciplinar. Suas obras incluem vídeos, instalações e objetos interativos, performances audiovisuais e imagens geradas com recursos algorítmicos. Na sua pesquisa explora a relação entre Natureza e Cultura colocando em diálogo dois tópicos principais, as capacidades perceptivas do corpo humano e a mediação da realidade por dispositivos técnicos. Se interessa pelo cruzamento da arte com outras áreas do conhecimento como a ciência, a filosofia e a antropologia visual de forma a construir processos e metodologias híbridas. Mestre em Moda, Arte e  Cultura pelo Senac-SP, pós graduado em Video e Tecnologias On e Off-line pelo Mecad de Barcelona, participa de exposições no Brasil e no exterior com destaque para a Emoção Art.ficial Bienal de Arte e Tecnologia (Brasil, 2012), Bienal do Mercosul (Brasil, 2009), Mapping Festival (Suiça, 2011), WRO Biennale (Polônia 2011) e o Pocket Film Festival no Centro Pompidou (Paris, 2007). Recebeu, dentre outros, o Premio Sergio Motta de Arte e Tecnologia (Brasil, 2009), Mídias Locativas Arte.Mov (Brasil, 2008) e o Vida Artificial (Espanha, 2008). Vive e trabalha em São Paulo.

 

Less is more. Evite a retórica. 

Como você começou a trabalhar com arte?
Tive contato com a arte desde pequeno, dos 8 ao 12 anos, após a escola (pública) eu estudava numa escola de música (também pública) e gostava muito de desenhar. Durante o colegial, como ex-aluno da escola de música, participei de grupos vocais, bandas, inclusive de um grupo de dança folclórica uruguaia. Mais tarde, perambulei alguns anos entre as belas artes, a arquitetura e a música, até que ao mudar para o Brasil, já com 27 anos, escolhi me dedicar exclusivamente às artes visuais.
 
Mindscapes #10, vídeo, 2012
 
Perambulei alguns anos entre as belas artes, a arquitetura e a música, até me dedicar exclusivamente às artes visuais.
Você é uruguaio, porque escolheu viver no Brasil?
Como estudante de arquitetura, em virtude dos encontros de estudantes de arquitetura que são organizados desde 1995 nos países do Mercosul, sempre tive muitos amigos brasileiros. No ano de 1996 vim cantar no Brasil com um grupo vocal já extinto, chamado Suite Montevideo, acabei estreitando laços com estes amigos e conhecendo a turma da cena da música popular paulistana. Coincidências do destino fizeram que em algum ponto desse rizoma eu conhecesse uma garota, o resto dá para imaginar.
 
Conte um pouco sobre as linguagens que você mais utiliza e por quê?
Venho do desenho e da pintura, posteriormente passei para o vídeo e em 2003. No curso de graduação em Multimeios entrei em contato com as artes tecnológicas. Encontrei nas novas tecnologias um ambiente fértil no qual podia integrar espaço, som e imagem em movimento. Recentemente tenho me concentrado na instalação e na performance audiovisual em tempo real, que traz o risco do feito ao vivo.
 

 

da série Mindscapes, 132 x 97 cm, metacrilato, 2014da série Mindscapes, 132 x 98 cm, metacrilato, 2012

Encontrei nas novas tecnologias um ambiente fértil no qual podia integrar espaço, som e imagem em movimento.

Você defende a ideia da criação coletiva, qual a importância da cocriação para a produção artística?
O tempo histórico em que vivemos nos exige em alguma das nossas esferas de atuação, o pensamento e a ação coletiva. Hoje nossas vidas transcorrem na fronteira entre o eu e o outro. Não acredito na morte do autor, mas sim em múltiplas configurações do ato criativo colaborativo onde colidem a troca de saberes e afazeres.

Como as novas tecnologias influenciam/colaboram/participam da arte?
A arte, assim como qualquer outra área do conhecimento humano, está estreitamente vinculada às descobertas tecnológicas do seu tempo. Pensando especificamente nas tecnologias de hoje e assumindo que a humanidade é cada vez mais consciente da complexidade que a cerca, acredito que elas nos ajudam a pensar, representar e especular com profundidade ao seu respeito.
 
Mindscapes, performance audiovisual, 2011
 
 
Me interessa na arte e nos artistas a capacidade de ir fundo no domínio da linguagem e dos fenômenos.
Qual o papel do artista visual na sociedade contemporânea?
Entendo o artista como um hacker, uma pessoa que está no mundo de modo crítico, questionando o seu entorno e as relações nele existentes. Não sei se ele tem um papel, me interessa na arte e nos artistas a capacidade de ir fundo no domínio da linguagem e dos fenômenos. Somos um híbrido de natureza e cultura (cultura e natureza para outros) e creio que quando exploramos este conjunto com intensidade, mais rica e densa é a experiência da vida.
 
Você expôs em diversos países, conte um pouquinho sobre essas experiências. 
A viagem representa o embate com o desconhecido. Expor no exterior é se colocar em diálogo com diversas culturas e formas de estar no mundo. É surpreendente perceber que o mesmo trabalho é recebido de forma diferente no Brasil, na Suíça ou na Russia, essa experiência amplia a percepção a respeito das questões que você pesquisa. Nesse sentido uma viagem também é a oportunidade de expandir a pesquisa em novas direções.
 
Mindscapes Suite, vídeo, 2010
 
Você é curador da Residência Artística do Red Bull Station, para selecionar os residentes vocês conhecem muitos trabalhos, linguagens e técnicas. Como é essa seleção e o desenvolvimento dessa curadoria?
O processo de seleção é muito rico. Por um lado oferece a possibilidade de entrar em contato com a produção emergente, por outro lado gera um espaço de troca entre a comissão julgadora. Sem dúvidas é um grande desafio que impõe questões éticas e ponderações de diversas ordens. No caso da Residência Artística do Red Bull Station procuramos criar um grupo heterogêneo em todos os sentidos, idade, estágio de carreira, mídias utilizadas, etc.
 
Quais suas recomendações aos novos talentos, quanto ao uso de novas tecnologias e elaboração de portfólio?
Less is more. Evite a retórica. 
 
501, auto-retrato, vídeo, 2006
 
 
 
Fonte: Fernando Velázquez
Fotos: 1 a 4 - Divulgação; 5 - Ivson Miranda; 6 e 7 - Divulgação.
 

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