Entrevistas

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O carioca Geraldo Marcolini morou por cinco anos em Nova York, onde trabalhou e estudou  na School of Visual Arts. Atualmente reside no Rio de Janeiro e é respresentado pela Galeria Zipper. A marca principal de suas obras, que são tão impressas quanto pintadas, é o uso de materiais alternativos como borracha e plástico bolha, por exemplo. As telas tem uma monocromia que remetem ao bege do papel jornal ou ao azul da cópia feita com papel carbono, ao mesmo tempo que revelam imagens e criam novas percepções.  

A criação é um processo árduo e muitas vezes ingrato, é preciso estar sempre com a mão na massa ou pelo menos pensando o trabalho, não dá pra depender da tão romantizada inspiração. 

Como e por que você escolheu trabalhar com arte?
Desde muito novo me interesso por arte, principalmente pintura, por influencia do meu pai, um comerciante que sempre pintou no tempo livre. Na minha infância tive muitos livros de arte ao meu alcance e passava as noites desenhando, copiando os grandes artistas ou capas de discos, fotos de revistas e histórias em quadrinhos, cheguei a inventar alguns personagens. Mas só resolvi tentar trabalhar com arte mesmo aos vinte e poucos anos.

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As suas obras se destacam pela variedade de texturas, como você faz a seleção de materiais para produção das obras?
Gosto de experimentar com materiais diversos, mas ultimamente tenho trabalhado a superfície da tela com um tipo de pintura ‘impressa’. Uso materiais que recebem uma camada de tinta fresca e são então aplicados sobre a tela, deixando as marcas do processo. Comecei com plástico-bolha, obtendo um efeito que remete às retículas de processos gráficos industriais ou digitais e com o tempo lancei mão de outros tipos de texturas e padrões gráficos. Mas não gosto de ficar marcado por essa ou aquela técnica, acho que o trabalho deve surgir de uma ideia (ou mesmo de um acidente ou “erro”) e tomar forma espontaneamente, a técnica deve servir ao conceito ou objetivo. Agora mesmo estou trabalhando em grandes pinturas a óleo, numa aproximação um tanto diferente do que eu vinha fazendo, com mais cores, usando o pincel, ou seja, pintura no sentido tradicional. Acaba que, por mais que se especule, o interesse é sempre acima de tudo pela própria pintura, seus meios e possibilidades.

Busco inspiração em absolutamente tudo que me cerca, na vida cotidiana, na natureza, na arquitetura, na música, nos livros, no cinema, nas pessoas e no que elas dizem ou fazem, nas crianças, no jornal, na TV e,  é claro, na internet.

Você é representado pela Zipper Galeria, como artista como você vê essa exposição? Amplia a repercussão em torno do seu trabalho?
Trabalhar com galerias sempre ajuda na exposição da obra, seja em mostras individuais ou feiras de arte, e também na parte financeira, é claro. Tenho um ótimo relacionamento com a Zipper, mas acho que o artista precisa de um tempo que não é o mesmo da galeria, do mercado, que tem esse imediatismo e essa sucessão de eventos comerciais. É difícil ficar apartado disso tudo, embora necessário, de alguma forma. Existe hoje uma necessidade muito grande de estar sempre expondo, sendo citado na mídia, selecionado para mostras, o que vai contra o próprio processo de criação artística, que demanda tempo de reflexão, experimentação, tentativa e erro, contemplação, enfim, coisas que não obedecem à lógica do consumo frenético que caracteriza nossa sociedade.

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Como você avalia o cenário da arte no Brasil? Qual o comparativo com a arte no exterior?
Essa é uma questão complexa que envolve diversos aspectos. Não há dúvidas que a visibilidade internacional dos artistas brasileiros vem crescendo ultimamente, apesar de ainda ser quase sempre através de curadorias e leituras equivocadas que se apoiam nos velhos clichês de sempre sobre o que é a “brasilidade”. Se olharmos para dentro do país veremos problemas estruturais e institucionais muito graves. A situação precária da maioria dos museus, coleções e do patrimônio artístico em geral e a (desin)formação cultural e artística do povo brasileiro são aspectos que merecem atenção urgente. Viemos de uma tradição colonial muito forte, que ainda vigora nas relações sociais. Além disso, a arte sempre foi muito exclusiva, elitista, atrelada a fatores econômicos (não apenas aqui, é claro). Espero que com a diminuição da desigualdade social no país vejamos também uma maior democratização e acesso da arte e dos meios de criação artística às camadas menos favorecidas e lugares distantes das capitais. Isso demanda um projeto nacional de formação, preservação, pesquisa e difusão da nossa produção, e é verdade que algumas iniciativas de mapeamento já estão sendo realizadas, mas é um processo muito lento, tendo em vista o tamanho do país (e dos problemas), que precisa de muito mais vigor e atenção do Estado.

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Nos dias de hoje a fotografia está acessível para todos e o número de imagens publicadas na internet e aplicativos é cada vez maior. Isso se torna uma fonte de referência para você que gosta de trabalhar com imagens?
Sim, gosto de trabalhar a partir de imagens já existentes em forma impressa ou digital, sejam minhas ou apropriações. Costumo me apropriar da memória de outros, que de alguma forma se relaciona com a minha própria. Também gosto particularmente de imagens ‘amadoras’, por assim dizer, criadas sem grandes pretensões artísticas ou de composição. Não apenas de fotografias, mas também frames de vídeos ou filmes. Muitas vezes uma imagem me interessa, acima de tudo, por uma precariedade ou alteração na impressão/reprodução, gerando efeitos interessantes, texturas ou cores inusitadas. Procuro não racionalizar demais o processo de seleção das imagens, creio que algumas imagens pedem para ser pintadas, outras não.

Gosto de tentar coisas novas, mas quando começo a desenvolver um trabalho ou uma ideia preciso ver até onde posso levar aquilo, o que quase sempre resulta em séries ou grupos. 

Conte um pouco sobre as intervenções urbanas e a percepção do público. Como é o resultado dessas ações para o artista?
Trabalhei com intervenções urbanas no início da minha carreira, quando dividi um ateliê com outros artistas em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Organizamos algumas ações em conjunto, a ideia era tentar ampliar o circuito e levar o trabalho para as ruas, para o maior número de pessoas possível. Não inventamos nada, esse tipo de ação vem ocorrendo em várias partes do mundo, geralmente com essa intenção mais política, de discutir a cidade e seus problemas. Embora não trabalhe mais com esse tipo de ação, acho que a experiência foi muito enriquecedora, a coletividade agindo nas ruas tem uma dinâmica bem diferente do trabalho solitário e fechado do ateliê.

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Fotos: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

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