Entrevistas

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Lucas Levitan é um artista multimídia brasileiro que criou o Photo Invasion. Um projeto onde ele invade fotos do Instagram e faz intervenções ilustrativas recriando a narrativa das imagens. Você pode ser a próxima vítima do @lucaslevitan! Ele conta que sua trajetória profissional seguiu um ziguezague, tem dias que é filmmaker, outros artista plástico. Já foi designer e no momento está ilustrador. Ingressou numa faculdade cursando artes e conclui em outra o curso de publicidade. Foi para Londres cursar mestrado em artes e design. A estada que era pra ser de dois anos, já completou dez. Enquanto o tempo passa ele vai fazendo diariamente o que gosta, unindo duas paixões: ilustração e fotografia. Abriu até uma fábrica de invasões, onde ele é o único trabalhador. Nesta entrevista Lucas revela seus próximos projetos, vem mais coisa boa por aí!

 

 

Vejo o Photo Invasion como um jogo de criatividade.
 
Conte o que é o “Photo Invasion” e como esse projeto começou?
Foi em uma época que estava fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, trabalhava numa agência de publicidade. Porém, meu trabalho em publicidade nunca foi o suficiente para satisfazer meus sonhos como artista e por isso tinha tantos projetos paralelos. Eu estava editando meu documentário, escrevendo uma história em quadrinhos e estava fazendo muitas fotografias. Era muita coisa ao mesmo tempo, que me ajudava a manter minha mente no lugar. O Photo Invasion é um projeto que junta duas paixões: ilustração e fotografia. Comecei fazendo ‘invasões’ em minhas próprias fotos, mas vi que interagir com fotografias de outros era mais interessante. 
 

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Com é a reação de quem teve o Instagram invadido? Você recebe depoimentos?
As intervenções são diálogos entre a foto original e meu desenho. Sempre que a mostro no Instagram ou outras mídias sociais espero a mensagem do meu parceiro. É a mais importante. Quero que ambos estejamos de acordo. Até agora as respostas foram positivas, muitas vezes muito mais que eu esperava e isso me da confiança em continuar. Acredito que Photo Invasion cria uma segunda vida à fotografia, a leva para um caminho inesperado. Desde o início tive o cuidado de colocar os devidos créditos nas imagens que crio, mencionando os autores das fotos originais. Além disso, acredito que esteja claro que minhas interações com as fotografias não têm o propósito de superar a original mas, criar uma parceria.O Instagram foi a plataforma perfeita para o meu projeto. É o local onde se encontram grandes fotógrafos profissionais, amadores e também o que chamo de 'clicadores', pessoas que mostram seu dia a dia com fotos simples, mas igualmente interessantes. Acredito que pessoas que usam as redes sociais entendem mais o processo de apropriação e estão abertas a tipos de interação como a que faço.
 
Eu não escolho as fotos, elas que se fazem ver.
Como é o seu processo de criação, a seleção da fotografia e a construção da narrativa para cada uma? 
Era um desafio pensar o que as fotografias poderiam dizer além do que o fotografo original havia definido. Viajo por contas de Instagram buscando minhas vitimas e espero que alguma imagem me inspire. Eu não escolho as fotos, elas que se fazem ver. Acho que a surpresa de ser invadido é melhor que a expectativa de imaginar o que eu faria com a foto enviada. Gosto da liberdade de criação. Algumas fotos pedem uma ‘invasão’ poética, outras com humor mais escrachado. Esse é o projeto que me sinto mais livre para expor minha maneira de pensar e criar. Para conhecer meu humor é só entrar na página e conhecer as diversas matizes da minha forma de pensar. Vejo esse projeto como um jogo de criatividade. 
 

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Quem quer ser uma vítima do Photo Invasion precisa fazer o quê? Só usar a hashtag #iwanttobeinvaded já vale? 
A hashtag é uma forma de agrupar as pessoas que gostam e querem ser invadidas. A criação de uma hashtag veio de um dos meus seguidores e achei ótima. Dessa forma sinto que tudo esta mais organizado. Ja existem mais de 14 mil fotos com essa hashtag. Seria material suficiente para toda a minha vida. Mas não sigo apenas apenas as imagens proposta pelo fotógrafo, muitas vezes entro em suas galerias em busca de fotos que ele não imaginaria serem invadidas. Também busco Instagramers que ainda não conhecem meu trabalho, gosto de ver suas reações de surpresa e, muitas vezes, são desses que recebo as mensagens mais interessantes pois vem de alguém que não esperava. A outra forma de ter suas fotos invadidas é através do Photo Invasion Factory, uma fábrica que tem apenas um trabalhador: eu. As pessoas podem enviar suas fotos para meu email, pagar um valor e receber uma invasâo. Não garanto que as invasões aconteçam. Algumas pessoas entraram em contato com a fábrica mas foram rejeitados pois as fotos não eram ‘invadíveis’, é claro que se isso acontece não há custo.
 

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Hoje você é um artista multimídia, mas como tudo começou? Qual é a sua formação profissional, com o que já trabalhou, etc. 
Minha trajetória profissional foi em ziguezague. Não segui um caminho linear e nunca me identifiquei com uma carreira apenas. Nunca me importei em ser rotulado, pois tenho vários. Tem dias que sou filmmaker, outros artista plástico. Já fui designer e no momento estou ilustrador. Comecei a faculdade de artes da UFRGS, mas acabei me formando em publicidade pela PUCRS. Fui sócio da República das Idéias, empresa de Design. Após alguns anos decidi fazer um mestrado em artes e design em Londres. Pretendia ficar dois anos na Europa mas isso já fazem quase dez. Nesse meio tempo comecei a trabalhar em publicidade, além de projetos de filmes, documentários e ilustração. Gosto de ter um dedo em cada pote e como tenho dez dedos, tento aproveitá-los ao máximo.
 
Tem dias que sou filmmaker, outros artista plástico. Já fui designer e no momento estou ilustrador.
 
O que é o The Osmar Awards?
‘The Osmar Awards’ é o prêmio oficial do Photo Invasion, acontece na mesma época do Oscar, aquele prêmio de cinema que acontece nos Estados Unidos, sabe? rsrs O Osmar é um personagem que surgiu enquanto pensava em como poderia ser o troféu de premiação dos melhores do ano. Osmar é o irmão mais velho do Oscar, porém muito menos conhecido. O Oscar foi pros Estados Unidos fazer a vida e se manteve em forma, enquanto o Osmar teve péssimas experiências como ator e engordou. Decidi dar uma oportunidade a ele e não me arrependo. Osmar é melhor que o Oscar. No processo de seleção das melhores invasões de 2014 as pessoas podiam votar. Havia uma enquete no meu site e recebi milhares de votos. A resposta aconteceu na mesma noite do Oscar. Aproveitei também para ‘invadir’ a cerimônia ao vivo. Enquanto ela acontecia e a Academia de Filmes dos Estados Unidos postava imagens, ‘roubei’ algumas e inseri meus desenhos. Contei assim, uma história paralela e inesperada do evento. Adorei fazer e passei a noite desenhando.
 
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Também queremos saber sobre o Vienna Diary, como foi que aconteceu?  
A relação com Viena começou por acaso. A primeira pessoa invadida, que eu não conhecia, se chama @radiotom, no Instagram. A resposta que ele deu à invasão que fiz na sua foto foi genial e me deu a confiança para seguir. Ele faz parte de um grupo de Instagramers Austríacos, que pouco a pouco começaram a me seguir e como fazem um trabalho bacana, invadi fotos de alguns deles. Após alguns meses eles me perguntaram se me interessava fazer um workshop de grafitti. Sempre me interessou desenhar em um muro e tinha curiosidade em ver como meu desenho ficaria em uma escala maior, mas nunca tive a chance. Me levaram para Viena e os contatos começaram de maneira inusitada. RedBull e Samsung me ofereceram participar do maior evento de caridade da Áustria (LifeBall). Uma festa para conscientizar sobre AIDS e combater o preconceito com quem é HIV positivo. Foi um fim de semana que aprendi muito e fiz muitos novos amigos. Entendi o poder das mídias sociais e como elas podem juntar os artistas.
 
Recentemente houve um certo burburinho na internet sobre o artista Richard Prince, que também invadiu perfis no Instagram e criou a Exposição New Portraits, onde colocou as obras à venda por 90 mil dólares. Aí você invadiu uma foto já invadida pelo Richard, como foi isso?
Recebi muitas mensagens por acharem que nossos projetos eram semelhantes, porém são BEM diferentes. Ele dialoga com o sistema e a sociedade. Sua arte é critica e vale $90 mil. Sim, eu roubo as fotos, mas meu trabalho existe como dialogo gráfico entre dois artistas, quem produziu a foto e quem a transformou. Crio assim uma parceria e uma terceira obra. Além disso, nós (autor e invasor) usamos uma mídia que permite alcance universal, o Instagram. Meu trabalho vale £350. Como invasor de fotos, não poderia deixar passar esta oportunidade em fazer parte dessa conversa. Roubei uma das fotos do Richard Prince, coloquei um comentário na foto, assim como ele faz no trabalho dele e, claro, adicionei minha ilustração. Até agora Richard Prince não se manifestou, porém, o autor da fotografia original aprovou seu uso na minha página do Instagram. Importante também é o valor que estou vendendo o resultado da nossa parceria. Mantive o preço que Richard Prince vendeu sua obra, que dentro do mercado oficial de arte vale £90 mil (até para não depreciá-la), porém acrescentei mais £350 que é o meu custo de ilustrador. É claro que nesse valor não esta incluído o envio. 
 

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Quais seus próximos projetos e planos? 
Os planos relacionados ao projeto Photo Invasion é lançar uma aplicação para que as pessoas possam fazer suas próprias invasões com as minha ilustrações. Esse app deve estar pronto até o final de agosto. O outro plano é lançar um livro até o final do ano, mas ainda estou buscando uma editora que me faça uma boa proposta. Gostaria de ver esse livro editado em três idiomas (inglês, português e espanhol), já que o meu público está espalhado em muitos países. Em paralelo, sempre tenho outros projetos. Um documentário sobre minha família, que fugiu da Lituânia pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Esse documentário está quase pronto, falta apenas algumas semanas para terminar. Também tenho uma história em quadrinhos que gostaria de lançar esse ano. É uma novela gráfica sobre a história da relação muito bonita que o avô da minha esposa tinha com seu filho nascido com necessidades especiais. E por fim, tenho pequenas histórias em quadrinhos que gostaria de editar como uma revista online. Bom, como havia mencionado anteriormente, são meus dedos em vários potes.
 
Você tem alguma dica para quem está ingressando na vida profissional ou ainda não encontrou o que realmente gosta de fazer? 
Eu acho que no fundo as pessoas sabem o que gostam de fazer. O problema sempre é que seguimos o que os outros ou a sociedade acredita ser o mais correto. Sempre deixamos de lado nossas paixões para seguir profissões que nos dão segurança. Vejo muitas vezes pessoas que decidem seguir caminhos já traçados pensando que desta forma terão um futuro garantido. Eu defendo que cada um tente pensar independentemente da pressão que sofra. Não existe duas pessoas com caminhos iguais, nem duas pessoas que terão carreiras semelhantes. Cada um tem uma história a seguir. Eu tentei por muitos anos trabalhar em publicidade e design por acreditar que me daria uma tranquilidade financeira, e no meu tempo livre teria espaço para fazer o que realmente gosto. Porém, eu sentia que alguma coisa estava faltando. A mudança pra mim aconteceu enquanto caminhava pela rua, um tijolo caiu do quarto andar de uma construção. Passou a dez centímetros da minha cabeça e espatifou no chão. Naquele momento percebi que tinha muito mais que fazer e muitos projetos pra realizar antes da morte me encontrar. Dei meia volta e pedi demissão da agência que trabalhava. Desde esse momento tento fazer mais o que eu gosto. O filósofo grego Epicurus, definiu que a felicidade possui três pilares: liberdade, amigos e reflexão. Quem busca satisfação profissional não pode deixar de considerar esses três ingredientes. Para encontrar algo que se goste de fazer, deve-se buscar a liberdade de escolha, deixar a lado preconceitos e influências externas, tentar buscar algo que te complete. A amizade traz prazeres que nenhuma profissão dará, minha dica é ser moderado e trabalhar o suficiente para que haja espaço para amigos e família. E por último, reflexão. Seguir por toda a vida se perguntando se estamos no caminho certo e ser corajoso para mudar e experimentar outras coisas, se necessário. Nós mudamos todos os dias, mas muitas vezes seguimos fazendo o mesmo por anos sem questionarmos.
 

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Fotos: 1 - Claudio Prybl; Demais fotos - Instagramers + Lucas Levitan.
Fonte: Lucas Levitan e Photo Invasion
 
 
 

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