Entrevistas

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O projeto Mulheres de Mafra é desenvolvido por um grupo de artesãs que utilizam resíduos de malha, que seriam descartados pela indústria têxtil, para criar produtos utilizando técnicas como tricô e crochê. O trabalho é desenvolvido por moradoras da cidade de Mafra, localizada no interior de Santa Catarina, distante certa de 300 Km da capital, Florianópolis. A diretora do Orbitato, Celaine Refosco e a coordenadora operacional do projeto Mulheres de Mafra, Rosane Pfitzer, contam sobre a atividade que busca aproximar artesanato e design. 
 
 
Queremos aproximar mais a atividade artesanal do design.
O que é o Projeto Mulheres de Mafra?
O Mulheres de Mafra é um projeto que já existe há cinco anos entre o Orbitato e um grupo de mulheres da cidade de Mafra, em Santa Catarina. Mafra está localizada no planalto norte catarinense, que tem na agricultura sua base econômica e no fumo seu principal cultivo. As mulheres que participam do projeto são em geral agricultoras e sua principal função é trabalhar na colheita do fumo, que toma de 4 a 6 meses de trabalho por ano. No restante do tempo há uma entressafra marcante e as mulheres ficam ociosas e sem renda. Além disso, o fumo é um cultivo bastante nocivo com largo uso de defensivos agrícolas, o que torna o trabalho insalubre. A ideia do projeto é incentivar uma atividade que garanta rendimentos extras, aproveitando um conhecimento que já existente, como o crochê e o tricô, que podem ser conciliados com os afazeres agrícolas, dos quais depende, em geral, toda a família. Esperamos que o projeto, além disso, possa impactar na vida sociocultural deste grupo, seu bem estar familiar, que contribua para a ampliação e aprofundamento das técnicas empregadas na atividade, além de fornecer conhecimentos amplos para o desenvolvimento de novos horizontes. Queremos aproximar a atividade artesanal do raciocínio de design, para que todo o trabalho possa valer mais.
 
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Qual é a matéria-prima utilizada e de onde ela vem?
A matéria prima é sobra do processo produtivo das indústrias têxteis que produzem malha, de cada lateral de toda a malha produzida sobra uma tirinha de um centímetro de largura, é isso que as mulheres usam para tecer, tricotar e crochetar. De certa forma podemos dizer que a matéria prima vem do lixo, não é exatamente isso, mas é como se fosse, estamos reutilizando um material que sobra. Santa Catarina produz malha em um volume gigantesco, imagine quanta sobra deste material existe por aí. 
 
O projeto cria produtos diferenciados, que aliam artesanato e design. Contem um pouquinho sobre eles e o processo de desenvolvimento.
Começamos a fazer peças para a casa, para mesas, tapetes, almofadas, puffs e outras coisas arredondadas e côncavas, que viraram potes e fruteiras, percebemos que o material rendia muito e percebemos que o material rendia muito. Então, surgiu essa percepção da vocação do material e sua associação com o design. Por outro lado, tivemos aqui no Orbitato repetidas vezes a presença de um designer argentino, o Alejandro Sarmiento, que faz um trabalho muito interessante. Ele, por opção, trabalha com materiais de descarte industrial e tem muita experiência com processos de baixa tecnologia, devido a afinidade e provocamos o encontro. No começo foi complexo, muitas das mulheres nunca haviam viajado, nem os 180 Km que separam Mafra de Pomerode. Muito menos convivido com um designer que fala espanhol e tem cinco ideias malucas por minuto, mas o resultado foi incrível, o diálogo se fez e logo o raciocínio do Alejandro contaminou o processo.
 

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Santa Catarina produz malha em um volume gigantesco, imagine quanta sobra deste material existe por aí. 
Quantas pessoas, aproximadamente, estão envolvidas no projeto? 
Temos participantes em várias esferas do projeto, aproximadamente 25 mulheres de Mafra são as atuais beneficiárias diretas, mas pretendemos expandir este número chamando novas participntes. Não fazemos seleção, entra quem tem interesse e vontade de trabalhar, o próprio grupo acolhe e dá as primeiras diretrizes. Para quem é de Mafra ou das redondeza, pode ser mulher ou não, basta manifestar o interesse em participar. Fazemos visitas regulares ao município e a mulherada está sempre lá. Elas se reúnem semanalmente, mesmo sem nossa presença, numa escola rural em uma localidade chamada Butiá do Lageado.
 
Como é feita difusão da técnica utilizada para os participantes do projeto?
Recentemente tivemos inclusões de pessoas muito jovens, que querem aprender mesmo. Em geral, o aprendizado começa entre o próprio grupo e nós fazemos oficinas de melhoria técnica com frequência. Estamos sempre observando como as coisas andam, quais as necessidades e quais as prioridades necessárias para o aprendizado. Contamos com a participação de profissionais que são alunos da Orbitato e voluntários, que são parceiros queridos, como a aluna Juliana Foz, que vem de uma cidade chamada Promissão, no interior de São Paulo e tem experiência com grupos rurais. Outra é a Clarice Boriam, que tem muita experiência com artesãs urbanas e com materiais residuais. Faremos ações de capacitação e difusão mais constante a partir da aprovação do projeto na Lei Rouanet, com este apoio estão previstas capacitações bem técnicas, como também visões mais amplas dos fatos, desde combinações de cores até noções de comunicação, por exemplo.
 
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Como os produtos são comercializados e qual o seu maior diferencial?
A comercialização é sempre a parte mais frágil dos processo produtivos artesanais, na minha opinião. Em primeiro lugar, tem a questão da formalização do sistema produtivo, não existe ainda e parece, a princípio, que não tem como criar uma cooperativa ou outro instrumento coorporativo que abrigue a produção. Isso impede a comercialização, do ponto de vista legal. Acaba-se assim a relação com possíveis pontos de venda, formais e especializados. Além disso, existe toda a dificuldade de estabelecer o contato entre pessoas que produzem, aqui no interior de Santa Catarina, com quem tem interesse por este tipo de produto. Felizmente a internet está aí para nos ajudar a resolver esta questão. Atualmente, os produtos são comercializados pela Galeria do Instituto Orbitato, que envolve os trabalhos numa atmosfera de design e arte. O grande diferencial, sem dúvida, é a reunião de alta e baixa tecnologia. Peças tecidas manualmente a partir de resíduos que recebem estampa digital como finalização e raramente são encontradas no mercado.
 
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O Mulheres de Mafra agora está inscrito na Lei Rouanet, o que isso representa? 
Verdade, é o primeiro projeto da Orbitato que é aprovado pela em lei de incentivo fiscal. Isso representa muito, não apenas para o projeto Mulheres de e para a população interessada, uma série de oficinas de grande qualidade, sem custo.
 
Quais os próximos planos para o Mulheres de Mafra?
Estamos em fase de captação da Rouanet, se tudo der certo, em breve estaremos anunciando as oficinas que devem reunir no mesmo ambiente produtivo artesãos, designers, estudantes e demais interessados, produzindo juntos soluções para os produtos que o grupo realizará. Geralmente vai acontecer aqui em Pomerode mesmo. A ideia é abrir o projeto patrocinado com uma grande oficina gratuita com o Alejandro Sarmiento,  para 50 pessoas de sorte, de todo Brasil, que queiram passar uma semana estudando possibilidades com este material e com o artesanato como sistema produtivo. Depois continuamos com uma série de oficinas que oscilam entre criação de materiais, produtos e melhorias técnicas.
 
Os excedentes da produção industrial são tantos, tão diversos e ricos que olhares atentos e mãos habilidosas podem revalorizá-los e inserí-los novamente no circuito de bens e valores - Celaine Refosco
 
 
 
 
Fonte: Orbitato
Fotos: Foto 1 - Flora Refosco; Fotos 2 e 5 - Raphael Gunther; Fotos 3 e 4 - William Bucholtz; Foto 6 - André Gusi Barbi.

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