Entrevistas

Roberta Tassinari

Representante da Geração 2000 de Santa Catarina, a artista Roberta Tassinari é autora de uma produção complexa, que traz o secular problema da pintura para a arte contemporânea. Seu raciocínio pictórico amplia as possibilidades da pintura com resultados alcançados a partir de outros materiais, sobretudo objetos coloridos e transparentes apropriados do cotidiano. Deslocados de sua funcionalidade, sobrepostos e articulados, eles estabelecem o que ela chama de “construções de campos de cor no espaço”. O trabalho, sempre fruto de uma consequência e não de uma busca, provoca percepções, mais ou menos intensas, de opacidade, translucidez, peso, leveza e luminosidade, razão pela qual o espaço das salas expositivas sempre é valorizado. É o que mostra até o dia 21 de abril, na sala oficial do Museu de Arte de Blumenau, onde expõe na primeira temporada do ano. Ao mesmo tempo, celebra a sua participação no almejado 66° Salão de Abril (CE), um dos mais importantes do Brasil. Nesta entrevista concedida à jornalista Néri Pedroso, ela comenta as singularidades de sua poética, uma pintura sem gestualidade mas plena de pertinências contemporâneas.

 
A minha paleta de cores é bem específica. São cores saturadas, aquelas com pouco ou nenhum branco em sua composição. Por isso ficam tão vibrantes.
 
Uma das representações da arte contemporânea de Santa Catarina, com um currículo consistente, você acaba de ser selecionada para o 66º Salão de Abril (CE), e está com a mostra “Reverbera” no Museu de Arte de Blumenau. Como situa tudo o seu atual momento?
Cada artista escolhe um caminho a seguir e tem uma trajetória a ser construída. Participar de exposições e salões de arte por meio de edital foi a escolha que fiz. É um caminho institucional. E dentro dessas escolhas, é importante saber quais os espaços que favorecem o trabalho. A exposição em Blumenau é beneficiada pela estrutura do museu - equipe eficaz - e pela luminosidade natural que tem na sala oficial - já que uma das suas paredes são de vidro. Esse é um dado importante para os trabalhos, pois a reverberação da cor é potencializada nestas condições.
 
Roberta Tassinari 5
 
Onde está a gênese do seu pensamento pictórico?
Está na cor e nos materiais de que me aproprio. Escolho um objeto pelas suas potencialidades plásticas, ou melhor dizendo, pelas suas características intrínsecas: transparência, opacidade, tonalidade, peso, leveza, maleabilidade, rigidez, etc.
 
Que pintura é essa em que o gesto do artista está quase ausente?
É uma pintura que utiliza como matéria-prima objetos já com uma forma e cor constituídas. Quando fiz o mestrado em artes visuais, na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), o artista e curador Fernando Lindote contribuiu bastante com a pesquisa, pois eu participava desde 2008 do seu grupo de orientações. Na época chegamos a uma nomenclatura para estes materiais comprados em lojas de 1,99: o termo era módulos de cor. Então, a relação entre um e outro módulo de cor é que dá origem a estas estruturas cromáticas. Deste modo, minha intervenção ocorre através de furos para junção dos elementos e na sobreposição destes materiais. Recentemente comecei a pintar com tinta sobre eles, mas sempre com spray ou rolinho, para não deixar o gesto da pincelada aparente. O que importa é o material.
 
 
É uma pintura que utiliza como matéria-prima objetos já com uma forma e cor constituídas. 
Como define o seu prazer de pintar? Dá muito trabalho subtrair o emocional diante da pintura?
A pintura se baseia em três aspectos: cor, luz e espaço. Quando pinto costumo buscar relações a partir de faixas de cor. Conforme a cor e a quantidade de luz que ela possui, situações espaciais começam a acontecer no trabalho e uma faixa de cor parece estar mais a frente ou mais distante do que outra. Escolhi a faixa como elemento por ser mais neutra, digamos assim, para não dar margem a possíveis formas e fugir do meu foco. Me interessa investigar as relações plásticas da matéria: uma tinta azul de uma determinada marca que tem mais luz e uma tinta azul de outra marca com menos luz, por exemplo. Cada material tem suas propriedades, o que busco fazer é potencializar essas características. 
 
Roberta Tassinari 4
 
A composição nos seus trabalhos resulta das relações geradas entre cada faixa de cor.  Fruto de uma consequência e não de uma busca, como se dá o processo de criação?
O processo ocorre a partir da definição da paleta de cores. No momento trabalho com contrastes: cores com mais luz em oposições a cores-sombra, como tenho chamado as tonalidades que variam entre o cinza e o marrom. É como se a falta de luz em um elemento enaltecesse o excesso de luz do outro. Então, o que busco são essas tensões entre um elemento com o que está próximo. O resultado final é a soma destas relações. Talvez o que eu busque está ligado ao conceito. É a construção de uma cor - e que provavelmente nunca irei atingir -  que está na soma de todas as cores de todos os trabalhos. Quando uma cor chega num limite, antes de passar para outra. É por esses limites que me interesso. Isso é algo recente, e por enquanto, tenho dificuldades de traduzir em palavras.
 
Você é duchampiana quando escolhe os materiais por conveniência. Busca materiais sem memória. As escolhas se dão mais pela cor do que pelas especificidades?  Como se estabelecem as suas relações com os objetos?
Sim, o ponto de partida é a cor. A especificidade vem junto, complementa a escolha. Mas a minha paleta de cores é bem específica. São cores saturadas, aquelas com pouco ou nenhum branco em sua composição. Por isso ficam tão vibrantes. Esses objetos, no meio de tantos outros, saltam aos meus olhos, devido à essa luminosidade da cor. Posso encontrar esses objetos em 1,99, em loja de ferramentas, utilidades para casa, etc. O importante é estar com o olhar atento. 
 
Roberta Tassinari 3
 
A arquitetura, o espaço é um componente valioso no seu trabalho. Você se molda ao que está posto, explora as singularidades espaciais das salas expositivas. Neste sentido não existe trabalho pronto, ele está sempre em relação ao que está por vir na montagem da exposição?
A relação com a arquitetura é algo evidente em alguns trabalhos como “Croma”, feito com bóias infláveis e nylon,  “Pinturas”, desenvolvido com amoeba/geleca sobre parede e sementeira, desenvolvido a partir de sementeiras, amoeba e nylon. Você tem razão, estes três grupos de trabalho, especificamente, precisam mudar para continuar sendo os mesmos, para manter a sua lógica interna. Os demais grupos são estruturas mais estáveis, eles vão prontos para o espaço expositivo ou com instrução de montagem. Basta fixá-los. O que muda em relação ao trabalho é a luminosidade. Alguns são favorecidos pela iluminação natural, devido a composição desse tipo de luz. O mesmo ocorre com o tipo de lâmpada usada. Uso a lâmpada do espaço, não levo a minha. Então, nesse sentido, o espaço interfere nos trabalhos. 
 
Roberta Tassinari 6
 
Fale um pouco sobre a residência em Nova Iorque (EUA). Quando ela se deu e de que modo essa experiência refinou o seu pensamento pictórico? Quem foram os seus orientadores?
Foi uma experiência muito importante para o amadurecimento de algumas questões que estavam suspensas. Ocorreu em 2013 e teve duração de um mês. A proposta que enviei dizia o seguinte: desenvolver estruturas de cor a partir dos materiais que fossem encontrados no comércio local. A instituição School of Visual Arts disponibilizava um espaço para cada um dos 20 artistas residentes - dos mais diversos países. Semanalmente recebíamos a orientação individual de artistas como Steve DeFrank, Tobi Kahn e Gregory Coates entre outros, além de palestras, como a do crítico Jerry Saltz, colunista do “New York Magazine”. Também foram realizadas visitas de estudo a exposições nas principais galerias do Chelsea, como David Zwirner, Gagosian, The Pace, entre outras. Muito importante ter um olhar novo e de um circuito diferente do que eu estava habituada a frequentar. Isso ajudou a fortalecer alguns pontos - como a ampliação de repertório dos materiais que poderia explorar, até então a escolha se dava apenas por materiais de plástico ou derivados - e ajudou a ampliar questões conceituais: por que chamar de pintura? São estruturas de cor, a pintura é uma das possibilidades, mas não a única. Pretendo participar de outras residências. É muito importante para o trabalho, além da imersão em um contexto diferente, há uma predisposição para novas questões e outras reflexões sobre a pesquisa plástica. 
 
 
São objetos que saltam aos meus olhos, devido à luminosidade da cor. Então, o importante é estar com o olhar atento. 

Serviço



O que? Exposição Reverbera
Onde? Museu de Arte de Blumenau
Quando? Até 21 de abril de 2015, de terça a domingo, das 10h às 16h

 

 
Fotos: Ulisses Souza e Divulgação.
Colaboração: Néri Pedroso
 

Junte-se a outros profissionais criativos e empresas. Cadastre-se grátis!