Entrevistas

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Os primeiros traços de de Rodrigo Level surgiram em meados dos anos 90, influenciado pela arte urbana da Zona Norte paulistana, que segundo ele até o hoje é a base forte na sua arte. Primeiro ele trocou o papel pelos muros e mais tarde vieram as telas. Uma das marcas mais fortes do seu trabalho é o equilíbrio das cores, tendo geralmente preto e branco como dominantes  na obra. Rodrigo afirma que sua arte não é voltada para quem entende sobre arte e sim para quem está em busca de paz. 

Gosto de deixar livre o olhar do espectador, meu trabalho não predita e não limita o sentimento das pessoas. 

Qual foi o seu primeiro contato com o grafite, com a arte?
Desde criança sempre tive uma mesa onde rabiscava as ideias, sempre tive cadernos e folhas espalhados sobre a mesa e a metade do dia passava ali. Acredito que por meu fascínio por caligrafia, herdado da família, me aproximei naturalmente do Graffiti tradicional. Foi onde descobri uma possibilidade ainda maior de me expressar, seja nas dimensões, como na quantidade de pessoas que poderiam ver, sem distinções de classes sociais. Esse primeiro contato com o Graffiti aconteceu em meados de 1995, em minha cidade natal, São Paulo. Meu bairro, localizado na Zona Norte, sempre foi cercado de excelentes artistas, onde pude ter fortes influências para meu início no caminho certo do Graffiti, fazendo até hoje minha base forte na arte.

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Sua arte saiu da mesa de desenho para os muros da cidade e depois conquistou outros espaços, como foi isso? 
Todo o meu caminho na arte até hoje sempre foi algo muito natural, o caminho não teve uma ordem "correta", se assim posso dizer. No início meu melhor suporte e onde me sentia mais a vontade era o papel. Utilizar um suporte, tal como telas, veio bem mais tarde. Migrei primeiramente para os muros da cidade, mas com muito estudo antes no papel. O desafio de utilizar novos suportes veio com um convite para minha primeira exposição individual, em 2006, intitulada "Carta 1983". Essa exposição mostra bem essa passagem pelos suportes utilizados, como lonas sem chassis desgastadas, que lembram as texturas das superfícies dos muros da cidade, tudo muito rústico. Depois desta experiência dividia os muros com as pinceladas em telas, dentro do estúdio.

Desde o início sempre gostei de testar, então não tenho uma preferência, mas minha base sempre foi o papel e o muro. 

Qual a sua influência para pintar? De onde vem a inspiração para suas criações?
Sempre busquei me surpreender, sou uma pessoa que observa muito a todo o tempo e com detalhes. Então minha mente trabalha acelerada o tempo todo e minha pintura serve para filtrar tudo isso. Se colocar em prática todo o caos que observo no dia a dia, penso que seria mais breve e direto pintar uma tela em preto. Mas sempre busquei minimizar, quando libero esse tais sentimentos com pinceladas. Não me considero um pintor minimalista, mas que bebe na fonte veementemente do minimalismo. Somos visualmente bombardeados constantemente por imagens, informações de diferentes formatos e sentimentos, que nos fazem entrar em parafuso às vezes. O resultado que procuro chegar com as minhas pinturas é um conforto visual e espiritual. Minha arte não está direcionada apenas para os olhos entendedores, mas sim para os olhos cansados e sedentos por paz.

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Conte um pouquinho sobre a sua técnica e o uso de diferentes linguagens.
Por ser uma arte embebecida no minimalismo não se trata apenas de eliminar excessos e equilibrar formas e cores. O simbolismo nesse caso torna-se algo muito importante. Meu trabalho tem algo muito peculiar, no sentido da preparação dos materiais, em especial da cor preta. Sempre trabalho com cores foscas (FOSCAS!) e cada pigmento tem um cuidado grande na pincelada, para eliminar as marcas do pincel e mantendo uma superfície limpa, tornando essa uma característica plena no meu trabalho. As linguagens realmente se mesclam e desmembram, adaptam em diferentes posições sem uma "regra".

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Como é o seu processo criativo, o ambiente onde você pensa nas suas criações? A música serve como inspiração?
Definitivamente a música tornou-se base forte para tudo na minha vida, não sei lidar sem música, sem uma trilha sonora em meus ouvidos. A música me acompanha no antes, durante e depois da minha criação. Não tenho um ambiente exclusivo para pensar e criar, isso acontece naturalmente independente de local, mas preciso estar sozinho. Acho que isso não é um privilegio apenas meu, mas também de diversos outros artistas. Nos últimos tempos condicionei minha forma de criar diretamente na tela ou no muro sem um pré-estudo ou rascunho, queria extrair livremente o que tinha no momento, testar, experimentar e gostei, pois acho essas passagens fundamentais.

Você usa a tecnologia pra desenhar? Como vê essa fusão entre a arte e tecnologia?
Não! Embora meu trabalho seja confundido inúmeras vezes com um trabalho digital, no meu ponto de vista penso que deixaria meu trabalho muito plástico, sem vida. Ainda prefiro usar técnicas que conectem com a "simplicidade" do meu trabalho, minhas tecnologias são meus compassos e minha mistura de tinta preta. Acho fundamental qualquer experimentação usando a tecnologia, mas creio que não pode se perder a identidade e a essência.

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Uma das marcas do seu trabalho é o pouco uso de cor. Como surgiu essa característica, foi natural ou planejado?
No inicio meu trabalho continha muitas cores, mas sempre me preocupei em equilibrá-las, para não se tornar um caos visual. Com o tempo a redução de cores foi algo natural, como toda a evolução da minha arte. Passei um tempo abordando apenas o preto e o branco, em seguida fui adicionando tons de cinza. Creio que isso foi algo que tinha que fazer. Precisei me reorganizar nas cores que utilizava em meu trabalho. Isso está sendo bem especial, uma reciclagem se assim posso dizer. Também tem uma característica muito especial nisso tudo, meu trabalho hoje une tudo que abordei em todos os anos de arte, seja nas formas ou nas cores, cada detalhe especial, de cada serie que abordei, hoje esta contido no trabalho atual.

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Você já fez parte do projeto Lovers Week e foi um dos idealizadores de "A Casa Art Crew", entre outros. Conte um pouco sobre esses projetos.
O Lovers Week foi um projeto bem especial que tive a oportunidade de ser convidado. Ele veio através do projeto da confraria de artistas que fundei em 2011/12, "A Casa", juntamente com artistas amigos. Semanalmente nos reuníamos para discutir sobre arte e vida. Nesses encontros surgiam muitas ideias e pensamos expandir nosso grupo para outras cidades, incentivando reuniões de outros grupos de artistas para fomentar ideias, projetos etc. Infelizmente, por motivos naturais, o projeto não teve continuação, mas ainda pretendo retomá-lo em breve. 

 

Fonte: rodrigo-level.tumblr.com
Fotos: Divulgação


 

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