Entrevistas

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Anne Galante teceu sua carreira entre a moda, a arte e o design, misturando os fios e valorizando sempre o diferente e o único. Em seu ateliê ela desenvolve as complexas tramas da Señorita Galante, junto com colaborações para marcas como Animale, Alexadre Herchcovich e NK Store. Pelas ruas, Anne espalha vida: ocupa as paredes com splashes de tinta e distribui mantas coloridas e quentinhas para os mais necessitados. Foi com esse carinho, ponto a ponto, que ela dividiu com o Exib.me alguns retalhos da sua trajetória.

 

 Entrelaçar fios é desenvolver pontos precisos que parecem confusos. Com metros e mais metros de fio formo curvas e ângulos, colocando toda a minha intimidade numa infinidade de tramas que se misturam na receita do meu viver. 

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Quando surgiu a sua paixão pelo tricot e crochet?
Desde pequena sou amante das artes manuais e adoro o papo de 'faça você mesma'. Com 12 anos minha mãe ensinou a colocar os pontos na agulha, depois disso me tornei autodidata curiosa, aprendi com livros, revistas e internet. Cada peça que eu ia fazer queria pontos diferenciados e misturava muito os fios. Fiz faculdade de moda e pós-graduação em gestão de varejo. A empresa totalmente focada em tricot e crochet artesanal, Srta. Galante, existe desde 2008.

Você se considera uma pessoa criativa?
Eu me considero uma realizadora de sonhos feitos a mão. Quando me passam um briefing, sou bem disposta a investigar, procurar entender, e obter novas informações e novidades para o novo projeto, todo problema vira um novo aprendizado. Quando eu estou criando procuro me livrar de preconceitos ou bloqueios mentais, para não atrapalhar o raciocínio da construção da peça.

Geralmente crio direto nas agulhas. Gosto mais do resultado, que também é mais exclusivo.

Você também trabalha com outros segmentos, como design de interiores e intervenções artísticas. Como vê essa pluralidade da moda?
Sou workaholic, então entre uma coleção e outra da moda, que é bem sazonal, ampliei a história para decoração e arte. Hoje trabalho com artistas plásticos, designers, arquitetos, que gostam da estética do crochet e tricot, mas não sabem nem por onde começar porque o universo de pontos e texturas é infinito. Então, cada um entra com a sua especialidade e o resultado sempre é muito diferente e único.

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O que é o projeto Laços Contra o Frio e como surgiu essa ideia?
O Laços Unidos é um projeto que surgiu na intenção de juntar tricoteiras e crocheteiras solidárias, com ou sem nenhuma prática, para desenvolver quadrados de 30x30cm. Quando unidos, esses quadrados formam mantas para os mais necessitados. Na primeira edição foram 60 mantas entregues para os moradores de rua, e na segunda edição 83 mantas foram entregues para crianças de um hospital de retaguarda, chamado Casa Betinho. A cada ano conseguimos juntar mais grupos, como o Amor em Pontos, Coletivo Feito a Mão e Villa do Crochet, para nos unirmos e cada ano fazermos mais e mais mantas. Tudo é feito só com amor, sem nenhum real envolvido. Conseguimos doação de fios, doação de trabalho e até um espaço como A Casa das Caldeiras, para realizarmos os encontros que são sempre muito divertidos e prazerosos. Com certeza, quem ganha uma mantinha é abraçado a distância por nós que ficamos com todo o carinho ponto a ponto. Nós ensinamos a fazer nos encontros, então quem quiser participar é só ficar atento as datas no ano que vem, ou se já souber tricotar já ir fazendo seus quadradinhos para levar! Quanto mais quadrado, mais mantas e mais pessoas quentinhas. Enquanto uns pedem mais amor, outros só pedem mais calor.

Tenho várias equipes, sempre promovo capacitações, para essas técnicas milenares não morrerem, mas criarem uma renda extra para mais uma família.

A Señorita Galante também atua como private label para algumas marcas como Animale, Alexandre Herchcovitch e NK Store, por exemplo. Como funciona essa co-criação?
Na maioria das vezes eles desenham o modelo e me dão referencias de caimentos, eu entro com o mix de pontos e opções de fios. Na grande maioria das vezes é bem desafiador, uma troca de informação muito grande e um resultado que às vezes nem acredito que fui eu que fiz. Um exemplo foi a peça de corrente de metal para desfile da Animale.

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Como a slow fashion pode ser viável no contexto atual de extrema industrialização?
As pessoas mais contemporâneas entendem bem que tricot e crochet não são mais coisa da vovózinha. Hoje em dia temos fios e modelagens diferenciadas, que deixam as peças com um ar bem atual. O produto artesanal não pode ser comparado nunca com os produtos massificados, como os da China. Meus clientes entendem perfeitamente o valor agregado à peça e se alguém não entende explico uma matemática simples e a pessoa já muda de opinião, na hora. Algumas peças podem demorar até trinta dias para ficarem prontas e nunca vou desvalorizar a minha equipe de tricoteiras para baixar os preços das peças, porque não são máquinas, elas tem limites e merecem ser valorizadas como artesãs. É uma forma de valorizar essas técnicas milenares, para não se perdem no tempo. Com mais gente fazendo haverá uma evolução rápida para o tricot moderno, que as máquinas ainda não conseguem fazer. Sou suspeita pra falar, mas acho que essas técnicas deveriam ser ensinadas nas escolas, como forma de trabalhar coordenação, criação, concentração e habilidade manual, que pode também se tornar uma fonte extra de renda.

Tricot e crochet são absolutamente ecológicos, pois não usam energia elétrica, só as agulhas. Nenhum material é desperdiçado, pois podemos emendar um rolo em outro. Qualquer restinho pode ser transformado em uma nova peça.

Qual o melhor conselho profissional que você já recebeu?
Não me venha com problemas, me venha com a solução!

Qual mensagem você quer passar ao espalhar splashes de crochet pela cidade?
Como sou apaixonada pelas artes manuais, divido meu tempo entre o ateliê e as ruas. Como não sei desenhar desenvolvi splashes multicoloridos que escorrem pelas paredes como se fossem tinta, misturados com estêncil de crochet com spray. Não tem exatamente uma mensagem é só pra deixar a cidade mais colorida e dizer que se você não sabe fazer de um jeito, resolva de outro. Hoje faço os gráficos no computador com os desenhos, depois crocheto e assim aplico na parede podendo usar o mesmo estêncil de crochet mais de um vez.

Se você pudesse bordar uma frase para o mundo todo ler, qual seria?
Acredite e realize os seus sonhos. 

Espero que um dia as pessoas façam suas próprias roupas e valorizem ter uma peça única e exclusiva feita por elas mesmas. Se o mundo já fosse assim, não teríamos toneladas de lixo têxtil pelo mundo.

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Fonte: Señorita Galante
Fotos: Divulgação
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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