Entrevistas

Fe Pinheiro

Fê Pinheiro é formado em cinema e doutor em antropologia visual. Começou na fotografia documental e migrou para a moda, já teve suas fotos publicadas por revistas como L´Officiel, GQ, Harper´s, Elle, entre outras.

Cidade: Rio de Janeiro, porém já morou por 12 anos entre Paris e Londres.

Fale um pouco da sua trajetória.

Desde os 15 já estava inquieto querendo absorver o mundo. Primeira etapa era conhecer de onde viemos, quem seria o povo brasileiro. Neste período estava envolvido com fotografia documental e faculdade de cinema. Juntava uma grana, pegava a mochila e viajava no maior estilo 'easy rider'. Do norte ao sul, dormindo em praças, igrejas, quartos de pessoas que me acolheram super bem. Os filmes 35mm eram poucos para tamanha vontade em documentar tudo, assim como a faculdade e o próprio Brasil.

Mudei para França, onde iniciei um mestrado e doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris. Foi o momento de aprendizado teórico, ver muitos  os trabalhos de outros fotógrafos e receber a base teórica que precisava para desenvolver meus projetos. Na mesma época consegui um trabalho na Lendaria Magnum Photos, com edição de imagens e encontrei Depardon, Kudelka, etc. Para qualquer apreciador de fotografia, não havia sonho maior do que ter em mãos os arquivos destes fotógrafos, imagine para um jovem adulto de 22 anos.

Ao mesmo tempo, estava realizando múltiplos trabalhos documentais, sobre prisões no Rio de janeiro e sobre uma 'cité'(quarteirões pobres), chamado TRAPPE. Precisava de dinheiro e os trabalhos consumiam muito, não conseguia bancá-los. Foi neste momento que mudei para Londres para trabalhar em um estúdio de foto no meio de East London, que era para mim o epicentro criativo da Europa, em plena década de 2000, era lindo. Liberdade de criação, viagens lisérgicas, tudo estava acontecendo. Conheci rapidamente designers que trabalhavam na Vivian Westwood, viram o meu trabalho e me convenceram a mudar de área e ir para mercado editorial de portraits e fashion. Neste momento começa minha história como fotógrafo de moda.

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O que te inspira?

Qualquer cultura underground.

Qual o maior desafio que atravessou na carreira?

A mudança da fotografia documental para a moda.

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Você já fotografou diversas capas como Harper's Bazar, GQ, L'Officiel. Esse é um formato que te agrada ou prefere a diversidade que um editorial oferece?

Me agrada fazer qualquer trabalho criativo, que tenha um projeto interessante independente do formato. O editorial você tem mais possibilidade de criação, mas envolve outros problemas porque a equipe tem que pensar na mesma linha. Roupas, maquiagem, cabelo são fundamentais para o fotógrafo de moda desenvolver um bom trabalho.

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No seu trabalho é visível as nuances de expressão corporal e o uso da nudez intensifica isso. Qual a mensagem passada?

Vivemos em uma era onde saímos da liberação dos anos 70, passamos pela transformação dos anos 80 e chegamos ao começo do século com diversos pré-conceitos amarrados. Na Europa conseguimos expressar um pouco melhor, desenvolvendo trabalhos e publicando editoriais com nuances de nu.

Aqui no Brasil é quase impossível colocar em um editorial de moda um seio para fora. Fuck! Nu frontal? Esqueça, nunca veremos! Quando vejo fotos do Guy Bourdin, que fotografava crianças, imagina hoje alguém fazendo aquilo!? Pelo menos um grande debate viria à tona na sociedade.

Vejo a carga de maior dificuldade quando publico um nu frontal masculino, fotos de travestis ou mulheres em cenas mais pesadas. Acredito que neste desconforto é onde minha fotografia encontra o espectador e o faz refletir.

Como deve funcionar a relação modelo fotógrafo para atingir um resultado ímpar?

Não sigo regras, apenas deixo correr. A personalidade do fotógrafo, assim como a sua maneira de trabalhar, são determinantes para a sequência do trabalho. Eu por exemplo, não me vejo fotografando com tripé, preciso de movimento, sou uma pessoa inquieta e isto deixa tudo mais leve.

Acho que a espontaneidade é fundamental para desenvolver uma fotografia de moda contemporânea. Deixar a modelo criar livremente é o primeiro passo.

Fe Pinheiro Revistas

Como que você agrega seu estilo pessoal nas criações para uma marca já consolidada?

É muito difícil impor seu estilo em um trabalho comercial. Procuro, com o diretor de criação da marca, tentar desenvolver algo novo e se possível uma identidade imagética com a marca a longo prazo. Uma sequência de campanhas que cria no imaginário do cliente a identidade da marca. Algo muito difícil, quando poucos pensam assim, a maioria deixa-se levar pelo modismo, uma pena.

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Qual o papel do criador na sociedade contemporânea?

Questionar o comodismo e trazer à tona através do seu trabalho reflexões sobre diversas fissuras que a sociedade contemporânea possui.

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Fonte: fepinheiro.com

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