Entrevistas

Glaucia Cechinel2

Glaucia Cechinel fez a direção de arte e styling do Editorial White Noise. Neste trabalho ela desenvolveu um processo que articula a linguagem de styling com a linguagem cinematográfica, pois vem estudando cinema e direção de arte. Ela nos contou que cada foto foi pensada como parte de um todo, então houve muito cuidado na direção de arte e fotografia. Para não fugir do objetivo, Glaucia produziu story boards que serviram como roteiro para a equipe no dia das fotos. Confira a entrevista completa com Glaucia, sobre sua carreira e o Editorial White Noise

A faculdade de moda foi onde pude canalizar meus interesses e transformar meu background em algo material.

Como você ingressou no universo da moda?
Sou formada em moda pela Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, mas não sei exatamente onde começou o caminho que me levou até este ponto. Talvez nas aulas de história da arte no colégio, onde era uma das poucas que prestava realmente atenção. Ou nas aulas de história e literatura, que me faziam viajar para outros lugares, fossem eles reais ou não. Sempre tive interesse e sensibilidade para tudo o que envolve estética. Desde pequena era estudiosa e a internet trouxe um mundo de possibilidades, em termos de acesso à informação. Passava horas fazendo pesquisas e a moda se tornou meu assunto favorito. Lia muito sobre história da moda, estilistas e suas relações com outras áreas criativas.

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O que a moda representa para você?
Além do viés mercadológico e comercial, ligado ao trabalho, para mim a moda é uma ferramenta de expressão, em sua essência, é um discurso visual, além de também ser muito pessoal. Enxergo a moda além das roupas, para mim a roupa por si só é entediante. Os aspectos técnicos do produto sempre me atraíram menos do que os significados que se pode construir através deles. Tenho interesse por aquilo que cria vínculo, a narrativa, o conceito por trás de uma roupa ou uma imagem e como esse conceito pode refletir identidades pessoais ou de marcas.

Gosto de tudo que envolve cultura, então minhas fontes de inspiração geralmente vem do cinema, literatura, design, arte, música, fotografia, dança, arquitetura, e suas possíveis articulações.

Como é o seu processo criativo?
Costumo criar metodologias para melhor organizar meu trabalho antes de iniciar qualquer projeto, sejam eles comerciais ou autorais. Os trabalhos autorais me possibilitam uma imersão maior na parte conceitual. Em White Noise, por exemplo, houve muita pesquisa e estudo sobre o tema: silêncio. A pesquisa é a base para construção de moodboards inspiracionais. Depois defino os elementos que expressam da melhor forma a história: locação, luz, cores, acting, beleza, modelo, estilo. Crio layouts para cada elemento, contendo imagens e textos, eles servem de guia no desenvolvimento do projeto.

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O excesso de informação que temos hoje impacta o mercado da moda?
Há um consumo desenfreado de informação, onde a quantidade é mais relevante que a qualidade. Quem já não se perdeu num emaranhado de abas abertas numa única janela, passando de um site para outro em questão de segundos, sem absorver de forma plena toda essa informação? Queremos tudo ao mesmo tempo, da forma mais rápida e fácil possível. Essa intensidade da velocidade se reflete diretamente no mercado de moda: a rapidez dos processos de produção e venda está cada vez maior. O sistema todo está se especializando, mais do que nunca, na aceleração do tempo, no giro rápido de peças.

Você produziu o Editorial ‘White Noise’, conte um pouco sobre o conceito desse projeto. 
O conceito de White Noise partiu de uma tendência comportamental, que é essa a angústia e ansiedade causada pelo excesso de imagens e informações. Com isso a gente parou de ouvir o que realmente importa, ou seja, os outros e a nós mesmos. Por isso, eu queria falar sobre o silêncio como uma possibilidade de escuta. A base teórica veio dos estudos sobre o silêncio, da catarinense Raquel Stolf, e as referências estéticas de artistas que usaram esse tema em suas obras, como as telas brancas de Robert Morris e Malevich. Na música me encantou estudar o trabalho de John Cage.

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O que o branco representa para você?
Parti do pressuposto que o branco representa o silêncio, ao menos para mim, como uma folha branca, antes da palavra. Claro que o silêncio é paradoxal, porque na verdade há sempre algo para se ouvir, que podem ser os sons dos arredores ou lembranças dançando na nossa cabeça antes de dormir. Por isso, não tinha como falar de silêncio sem também falar do ruído, o ruído sendo algo negro e perturbador, que interfere e fragmenta o silêncio. Então, a cartela de cores do Editorial foi composta por dois blocos distintos: o primeiro todo branco, quando a personagem, num momento de introspecção, busca ouvir e tatear esse silêncio “embranquecedor”. Há uma imagem simbólica que representa a quebra desse silêncio, o vaso que está prestes a cair da mesa. Vem então a inserção de estampas em preto que lembram borrões, como uma representação visual do ruído e por fim os looks tornam-se totalmente pretos.

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Como foi a seleção das peças que compõem este editorial? Quem são os designers?
Queria trabalhar com um estilo minimalista e contemporâneo, sou apaixonada pelo design belga e escandinavo, que se encaixaria bem no conceito de White Noise. Buscava peças simples, com design clean e cool, além de shapes oversized 90´s. Também era uma vontade minha e do fotógrafo trabalhar linhas e silhuetas. Por isso, precisava de peças diferentes das que se encontra em lojas. Gosto da ideia de trabalhar com novos estilistas e marcas que participam de semanas de moda, porque tem um apelo mais conceitual. Há muito tempo sou fã do trabalho da mineira Julia Valle e venho acompanhando o trabalho do Lucas Leão, um dos ganhadores do Movimento Hot Spot. Foi ótimo poder fazer a edição dos looks com peças deles, carinhosamente enviadas para este editorial. Mas também usei peças de estilistas catarinenses, como das recém-formadas Juliane Biz e Jaque Scissar (UDESC) e da marca Bohoá.

Procuro sempre dar um sentido mais profundo à imagem, para que ela vá além da plasticidade e reflita também o trabalho que tive para chegar até ela. Além disso, meu trabalho também transpira um pouco de sensibilidade, esteticamente falando, prefiro o não exagero.

 

Fonte: facebook.com/glaucia.cechinel
Fotos: 1, 3 e 5 Juan Mazzola; 2 Jorge Ewald;  4 e 6 Matheus Alves. 

 

 

 

 

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