Entrevistas

13 Dez Julia Valle 4

A talentosa mineira Julia Valle é estilista e pesquisadora em artes visuais. Ela sonha em promover mudanças nas formas de comunicar e vestir. Já estudou piano erudito e teve uma banda de punk rock. Dançou ballet clássico e também andou de skate. Em seu ateliê, Casa Ramalhete, desenvolve todas as etapas da produção de sua marca. 

Idade: 30 anos

Cidade: Belo Hortizonte / MG

 

Conte um pouco sobre seu background criativo.

Sou formada em Comunicação Social, me meti a estudar Moda e agora curso mestrado em Artes Visuais. Estudei piano erudito, mas tinha banda de punk rock. Dançava no corpo de baile da escola de ballet clássico, mas andava de skate. Acho que meu background sempre foi entao meio misturado. Minha escola em estilo foi a Printing (marca de petit-couture de BH onde trabalhei de 2006 a 2009), o que parece seguir a mesma história de novo, começar da erudição, rs. No fim parece que tudo isso faz muito sentido, a comunicação, o movimento, as pausas, o incômodo, a subversão.


Fale mais sobre seus projetos atuais.

O ano de 2013 foi de muitas mudanças. Iniciei meu mestrado em Artes Visuais na UFRJ e me desliguei da produção em moda comercial, o que abriu espaço tanto para desenvolver projetos autorais com mais calma  quanto para iniciar uma produção acadêmica e repensar o formato do meu trabalho. Publiquei alguns textos sobre contatos entre o vestir e as artes visuais e também reflexões acerca da produção e consumo em moda. O alcance e retorno  disso tem me deixado bastante feliz. Atualmente tenho pesquisado sobre o 'ma', uma noção oriental de tempo e espaço, como possibilidade de pensar uma produção mais sustentável em moda.

Como é seu ambiente de trabalho e seu dia a dia?

Meu dia a dia é bastante diverso, tenho como ambientes de trabalho tanto o espaço do laboratório que recebe minha pesquisa na UFRJ, o NANO, quanto meu atelier, em Belo Horizonte, a Casa Ramalhete. Acho que o deslocamento e a diversidade de produção e diálogos são na verdade bastante frutíferos, uma pesquisa acaba gerando ideias para a outra e vice versa. No atelier, cuido de todas as etapas da minha produção em roupas: modelagem, corte, costura. É também onde comercializo as peças e recebo as clientes. Atualmente o passo da produção tem sido muito mais calmo, o que é ótimo. Agora consigo fazer outras investidas, como cuidar das plantas, participar de exposições e transitar mais pelo mundo. :)

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Como funciona seu processo de criação?

Os processos são vários e cada projeto pede um diferente. Gosto de partir de objetos de estudo que dão menos informação plástica, daí os caminhos são mais plurais, mas dependem de um trabalho intenso de tentativa e erro. Para as roupas, as pesquisas ajudam na escolha de materiais, formas, contornos, mas o resultado final mesmo, só dá pra saber quando fica pronto. Faço quase todas as peças direto no manequim e prefiro não transferir os moldes, assim não dá pra repetir de novo. Já na máquina de costura as linhas também podem alterar um pouco o caminho visual. O processo criativo, então, passa por todas as etapas, é a melhor parte.

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Quais seus maiores sonhos pessoais e profissionais?

Os dois sonhos se misturam bastante quando a gente tem como profissão algo que vem do coração. Sempre desejei promover, de alguma forma, mudanças em como as pessoas se comunicam com o que vestem. Acho que neste formato que produzo agora, combinando produções em textos e roupas, os resultados podem ser mais amplos.

Cheguei a conclusão de que meu interesse pela moda partiu de um desgosto pelo consumo inconsciente e sem limites. Comecei a costurar para suprir uma necessidade pessoal e creio que encontrei pessoas com esse mesmo desejo, de pensar o vestir mais como uma possibilidade de diálogo, expressão e reflexão que como uma maneira de alcançar padrões de beleza impostos para impressionar o outro.

Sonho, mesmo, com o dia em que as pessoas vão perceber que ter 10 peças confeccionadas com cuidado e atenção no armário é melhor que 100 produzidas em larga escala por sweatshops asiáticos. Com o dia que as pessoas passarão a perceber que cada um é um indivíduo diferente, formado por um entrelaçamento de relações e experiências. Não faz sentido querer que os corpos, os estilos e as expressões sejam tão pobres quanto lifestyles criados pela indústria replicados. E só por acreditar nessa possibilidade continuo fazendo vestíveis.

13 Dez Julia Valle

 
Fotos: Julia Valle e Valquiria Valle

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