Entrevistas

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Kabiria é uma marca social e ética de roupas fabricadas com tecidos africanos, por uma comunidade da Kabiria, no Quênia, no leste africano. Foi para lá que as Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR), encaminhou um grupo de pelo menos 40 famílias congolesas, vindas de uma terrível guerra civil entre Congo e Ruanda. O objetivo é que estes refugiados recomecem suas vidas, porém eles não recebem nenhuma assistência. Exilados de suas terras, sobreviventes da violência, os congoleses encontram uma dura exclusão social e econômica por parte dos quenianos.

 

 
O empreendedorismo social deveria ser o foco de todo empreendimento, porque ele tem poder de mudar a realidade. 
Como surgiu a Kabiria Fashion?
Eu fui pro Quênia como professora pela 50 Sorrisos, lá fiz muitos amigos e através deles conheci a Kabiria, através da apresentação de um coral. Já sou encantada pela música africana, mas aquela apresentação me impactou de um jeito diferente, eles eram diferentes de tudo o que eu já tinha conhecido no Quênia. Eles eram felizes ao mesmo tempo que passavam uma necessidade muito grande, vivendo numa favela, em termos de saneamento básico, fome, falta de assistência, etc. Eu me senti muito bem entre eles, tinha lido o livro 'Dead Aid', de Dambisa Moyo, que criticava a ajuda, então estava com aquilo martelando na minha cabeça. Nessa comunidade era perceptível que eles pensavam da mesma forma, querendo ajuda em forma de oportunidade, em forma de trabalho, de capacitação, muito mais do que através de doações, porque eles querem autonomia. Eu tinha que voltar para o Brasil em uma semana, mas decidimos criar um negócio e eu acabei ficando mais seis meses. Foi a partir daí que surgiu a Kabiria Fashion School.
 
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Como vocês optaram por criar um negócio social voltado para a moda? 
Quando decidimos criar um negócio começamos fazendo bolo, depois tentamos fazer sabão e por fim chegamos à moda, que deu certo. Minha mãe é da área da moda, então eu cresci nesse meio e aprendi muita coisa, tinha uma amiga lá que sabia modelagem e um dos congoleses sabia costurar. Começamos fazendo algumas peças pra mandar pro Brasil e com o dinheiro da venda comprar mais tecido e pagar pra quem produzia. Vieram cinco peças, que foram vendidas super rápido. Então, veio a ideia de montar um curso de costura, para que mais pessoas aprendam a costurar e possam viver disso. No começo do trabalho a comunidade ficou um pouco desconfiada, pois teve medo de ser explorada ou humilhada por nós brancos, mas aos poucos eles foram ganhando confiança, entenderam o nosso propósito e aí veio uma turma grande de mulheres fazer o curso de costura.
 
Como é a rotina da escola e o desenvolvimento do trabalho?
Para começar nós conseguimos algumas máquinas emprestadas e começamos a escola nos fundos de uma igreja, mas no mesmo espaço era feito comida para distribuir à comunidade. Então, tinha máquina de costura, panelas, chão de terra, tudo junto. Decidimos alugar um espaço só para a escola, depois, através do projeto 'A jornada de Renata Quintella' conseguimos comprar uma máquina de costura, que foi nossa primeira. Este ano a Singer fez a doação de duas máquinas, que foram esta semana para o Quênia. Como a comunidade está aprendendo a costurar, por enquanto nossas peças são muito simples, como saias envelope, mas a partir deste ano queremos ensinar peças um pouquinho mais complexas para elevar a qualidade do nosso produto.

 

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Quais as maiores dificuldades enfrentadas pela Kabiria?
Nós já enfrentamos um roubo das máquinas, mas que após uma investigação com o delegado local elas foram recuperadas. Nós percebemos também que os alunos passam por um contexto de fome, talvez seus parentes e vizinhos. Sempre que trazemos os mandasis (bolinhos locais) eles guardavam para levar para outras pessoas comerem. As diferenças entre homens e mulheres também é uma questão problemática. Todos estão lá são alunos e o valor das peças que cada um produz é vendido e repassado para eles, mas os homens não aceitam que uma mulher ganhe igual ou mais que eles, são questões assim que enfrentamos. Embora, na verdade a parte mais complicada está sendo a burocracia do comércio exterior.

Como adquirir os produtos da marca?
A nossa produção ainda é muito pequena, teve um mês que produzimos 50 nécessaires, no outro mês foram 20 saias, depois 20 vestidos. Se eles têm dificuldade para aprender ou costuram algo errado que precisa refazer, nós não vamos demiti-los, porque a Kabiria é uma escola. Então, é assim mesmo, nós acreditamos que vai melhorar, eles vão aprender, teremos mais condições e tudo vai dar certo. Hoje nossas vendas são basicamente em eventos e em domicílio, o contato pode ser feito pela página da marca no Facebook ou pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. mas em breve nossas peças estarão no Etsy, que é um e-commerce mais focado em produtos artesanais.
 

 

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Quem faz a Kabiria e o que a Kabiria representa para vocês?
A gestão da Kabiria é feita por mim, Renatha Flores, pela Valéria Anzanello e pela Mariana Fischer. Antes de ir para o Quênia, nós enfrentávamos uma crise de identidade profissional, porque queríamos seguir nossas profissões, mas não da forma atual. Por exemplo, eu sou professora, mas não quero trabalhar numa escola com um sistema de educação que eu não concordo, eu prefiro criar um novo conceito de educação comunitária, mais inclusivo. Para nós essa é uma forma de existir no mundo, então com a Kabiria a nossa vida ganhou um novo significado. Para eles, acredito que a Kabiria representa a possibilidade de recomeço, através do aprendizado de algo possa sustentá-los no futuro. Imagino que hoje a Kabiria é para essa comunidade local uma oportunidade de aprendizado, um espaço de convivência e segurança. Eles estão felizes lá, por estarem juntos, aprendendo algo em grupo, isso faz mais sentido para eles do que o dinheiro que eles ganham.

Queremos que a Kabiria Fashion School se sustente através da venda das roupas, então preferimos a doação de equipamentos, tecidos e aviamentos do que a doação em dinheiro, mas qualquer ajuda nós receberíamos com muita alegria.

Qual o sonho de vocês com a Kabiria?
Eu pensava que o meu sonho só iria se realizar daqui uns cinco ou oito anos, mas ele já vai acontecer este ano. Vamos criar o Instituto Kabiria para viabilizar um centro educacional e cultural para oferecer diversos tipos de aulas, como: teatro comunitário, alfabetização, horta comunitária, terapia em grupo, reiki, empreendedorismo, entre outras, através de voluntários que queiram repassar seus conhecimentos. O meu sonho, em geral, é que a Kabiria consiga se desenvolver economicamente, gerar muitos empregos e que todos estejam felizes com isso, trabalhando com criatividade. Mas, acima de tudo eu gostaria que a comunidade Kabiria se desenvolvesse de forma sustentável, que eles permaneçam unidos, sejam saudáveis e consigam pagar suas necessidades básicas, que sejam economicamente sustentáveis.

 

 

 

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Fonte: Kabiria Fashion
Fotos: Andréia + Nathalia Takeuchi

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