Entrevistas

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Lui Iarochescki assina "The Body of Colors", inspirado na obra Parangolés, de Hélio Oiticica. O editorial cria uma conexão entre o segmento da moda e da arte. "Uma serve de referência para outra e ambas expressam contextos comportamentais, tanto no aspecto visual quanto emocional", afirma. Lui é designer de moda, formado pela UDESC, estudou também na The Swedish School of Textiles, na Suécia. É com a sua coleção de ares vanguardistas, com referências nos módulos e dobraduras de Issey Miyake, que ele se prepara para lançar suas criações para o mercado.

É preciso que haja experimentação e questionamentos advindos dela, que obrigue o pensador/artista a sair da passividade.

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Qual a metodologia usada para a criação deste trabalho?
Visando uma expressão na vanguarda, explorei uma metodologia 100% experimental. Hélio Oiticica criava seus conceitos para que não houvesse conceitos, provocando o ato de experimentar, tão importante quando compreendemos que o pensamento não nasce espontaneamente. O intuito da aplicação destes fundamentos experimentais de Hélio Oiticica é agregar ao produto uma expressão artística de vanguarda, através da intensa experimentação com forma, cor, materiais, movimento e espaço, interagindo de forma dinâmica com o usuário e integrando-o a percepção e a expressão artística. Gastei muito mais em materiais durante o processo experimental do que com os materiais utilizados para a confecção dos looks finais, além de passar 80% do tempo do desenvolvimento total da coleção fazendo os experimentos. Este método intensifica a criação intuitiva, característica de um perfil mais artístico dos indivíduos, uma vez que a lógica da forma e do material é priorizada, ao invés dos padrões estéticos e conceitos de vestuário já impregnados na mente do criador. Este processo criativo é difícil de ser teorizado e as tomadas de decisão são difíceis de serem argumentadas, pois quando a intuição do criador entra em ação trabalha-se intensamente em um viés criativo mais subjetivo. Portanto, optei pelo registro fotográfico dos experimentos em um sketchbook. As tomadas de decisões e as novas ideias que surgiram durante o processo foram feitas com base na análise dos registros deste caderno.

Como foi feita a escolha das cores?
Praticamente durante todo o curso de moda minhas criações se inclinaram para as cartelas de cores sisudas de preto, branco e cinza. Costumava dizer que tenho “preguiça cromática”. Para essa coleção eu tinha a certeza que queria ser integralmente experimental e me aventurar em algo novo para mim, neste caso: as cores. A cartela foi baseada, principalmente, nos conceitos antropofágicos praticados por Hélio Oiticica. Para ele, a monocromia evidenciava a condição de um Brasil moderno, no tocante a identidade cultural mais real do país. Além disso, as cores luminosas da coleção estão relacionadas ao universo dos Parangolés, de Oiticica, dentro de uma proposta de projeção das cores na forma, no tempo e no espaço, extrovertendo também a participação dos indivíduos em prol da arte coletiva. As cores luminosas estão presentes na coleção de forma pura, ou seja, sem a interferência de duas cores no mesmo espaço. O branco foi utilizado relacionando-se de forma poética com a tela ou quadro vazio, intensificando o contraste das demais cores. A combinação preta e branca aparece também em forma de estampa listrada em alguns experimentos como suporte ou moldura para as cores.

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Como surgiu a ideia para a confecção deste novo tecido?
De forma intuitiva durante o processo de experimentação! Amarrar, envolver, enrolar, seduzir. Estas palavras estão relacionadas à etimologia da palavra corda. Além da fuga da utilização dos materiais convencionais ao vestuário, optou-se pelo uso das cordas como em uma relação poética com os Parangolés, de Oiticica – que envolviam e seduziam o participante no ato artístico da dança. As cordas também se relacionam com a objetividade da arte de Hélio Oiticica. Em sua fase objetiva, o artista utilizava objetos para compor suas obras experimentais, colaborando para uma arte mais democrática e genuinamente brasileira. As cordas também se associam com as amarras da tradição presente no vestuário masculino e sua estrutura dinamiza o visual das formas e linhas dos experimentos. Portanto, as cordas estavam dentre os materiais com os quais experimentei e é o material que dá forma ao design têxtil que desenvolvi. Após estudar vários tipos de amarrações, optei por simplesmente costurar uma corda na outra até obter a forma que eu desejava. Com a forma pronta, fiz os testes de tingimentos até obter as cores desejadas.

Fiz experimentos nos mais variados materiais – do papel, plásticos e feltros até cordas e madeira – em escala real e escala reduzida.

Quais os nomes e as características da moda masculina de vanguarda no país?
Infelizmente não tenho conhecimento de nenhum criador que trabalhe de forma consistente a vanguarda na moda masculina aqui no Brasil. No feminino, fiquei surpreso recentemente com a coleção de formatura do Sam Santos, de Belo Horizonte, que com apenas 22 anos, desenvolveu um trabalho impecável nos moldes da vanguarda. Glória Coelho também já teve sua época de ouro, navegando pela vanguarda. A Vanguarda não atua a posteriori, no sentido de confirmar tendências, mas a priori, forçando caminhos, criando novos repertórios, ativando a linguagem. Vanguarda é laboratório. Estamos na periferia da criação de moda mundial e não vejo a cultura da vanguarda sendo ensinada, desenvolvida ou consumida por aqui. O Brasil está focado na moda de ‘commodities’ e nos modismos. Sinto que estamos numa fase muito mais industrial e menos criadora/inventora.

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Quanto uma produção de moda influencia na interpretação de uma roupa?
A produção de moda, assim como o desfile e o editorial, são meios que o criador ou a marca usam para transmitir suas ideias, motivarem o conhecimento de seus trabalhos e conseguir a atenção da mídia, atraindo a atenção do público. Um editorial fotográfico é uma das formas de comunicação com maior capilaridade e capacidade de gerar expectativa, entretanto através dele é difícil de expressar as intenções técnicas da roupa - como construção e caimento – considerando sua forma estática de comunicar uma mensagem que é quase sempre mais poética. Já no desfile ou em um fashion film, o consumidor, com o repertório de moda, consegue observar tanto o caimento quanto as proporções das roupas sobre o corpo dos modelos em movimento, além de se envolver na atmosfera do tema da coleção. Porém, o desfile ao cuspir a roupa pronta na passarela teve que mastigar o produto mais importante de qualquer bom designer: o processo. No caso da minha coleção, conhecer o processo e as referências conceituais e estéticas que absorvi durante ele é fundamental para que as pessoas interpretem de forma integral os experimentos/roupas apresentados. Ainda estou estudando formas de comunicar o processo de forma sedutora e criativa para meus próximos trabalhos. Inevitavelmente - e talvez infelizmente - a moda é consumida através da imagem e essa imagem fica a mercê do repertório de moda de quem a consome. Por mais que você se esforce em amarrar o conceito da coleção com o conceito da produção de moda, a imagem construída é quase sempre poética e rasa e às vezes não é possível comunicar tudo o que se pretende.

Sua visão sobre o design de moda mudou quando você morou e estudou fora do país?
Mudar, talvez não, mas tenho certeza que deu longos saltos para frente! Com a oportunidade que tive na The Swedish School of Textiles mergulhei no berço da escola minimalista e descobri o que esse termo significa de fato. Confesso que o significado estava bem longe do que eu achava até então. Os suecos possuem uma relação com o vestuário muito ligada ao que é essencial, onde o convencional e o belo nem sempre são priorizados. Inovação é lei! Dentro de uma dinâmica de ensino de moda intensa e 100% independente, pude focar nos projetos que eu quis e contar com orientação dos profissionais e a estrutura da melhor universidade de moda na Suécia. Cada país possui sua identidade de ensino de moda e, sem dúvidas a Suécia foi a que melhor atendeu meus objetivos e necessidades. Voltei de lá com a certeza de que a moda é ferramenta de mudança e de qual é a minha função como designer de moda.

A moda serve de referência para a arte e a arte serve de referência para moda, ambas expressam contextos comportamentais de forma visual e emocional.

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Durante a formação acadêmica qual foi o aprendizado mais importante para você?
O aprendizado direto que considero mais importante foi o conhecimento técnico que requer o “saber fazer” compartilhado pelos professores com experiência prática. Afinal, moda se faz com agulha e linha! De forma indireta, aprendi que o certo e o errado, o belo e o feio são subjetivos. Mas, acima de tudo, durante a formação acadêmica aprendi qual caminho eu queria realmente trilhar dentro desse vasto campo da moda: o design.

Quais os seus próximos projetos e planos?
Lançar criações minhas no mercado. Minha marca de moda masculina será desenvolvida pelo grupo WNext, onde já trabalho na direção criativa de uma marca de moda feminina. Estou muito entusiasmado com todas as possibilidades e todo conhecimento que venho adquirindo junto a esse grupo. Encontrar gente que pensa como você e acredita no seu potencial é motivador! A WNext Fashion Brands preza pela responsabilidade socioambiental, desenvolvimento de pessoas e da indústria de moda local, com um time multidisciplinar de pessoas que buscam por mudança – o ambiente favorável para a criação da moda que eu acredito!

Um designer, para fugir do convencional, não deve se preocupar com os desejos do consumidor. Afinal, o consumidor não sabe o que ele quer até que você mostre a ele.

 

Fotos: Marcos Medeiros

 

 

 



 

 

 

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