Entrevistas

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A designer de moda Talyta Ritti inovou e apresentou, recentemente, a coleção Réquiem, um projeto conceitual, com roupas que imitam o esqueleto humano, com o objetivo de promover uma reflexão ao levar para a passarela corpos vestidos pela própria morte, com tons nudes pálidos e vermelho sangue. Ela contou ao Exib.me um pouco sobre o desenvolvimento deste trabalho, apresentado para a conclusão de curso na Universidade do Estado de Santa Catarina. 
 
 

Inovar é fazer aquilo que acredita.

Você transformou o cadáver numa obra de arte. Como foi criar o conceito desta coleção? 
Então, a proposta do OCTA  era uma criação autoral e como a maioria dos meus trabalhos, ao longo da faculdade, foram desenvolvidos com a temática morte eu segui nesta linha. Além disso, minha maior inspiração foi o seriado Hannibal (NBC),  que apresenta os cadáveres de uma forma extremamente artística e fascinante, do meu ponto de vista. A partir disso eu queria fazer um trabalho relacionando a morte a um objeto de arte. Porém, como no seriado todos os assassinatos são singulares e muitos distintos uns dos outros, eu não poderia trabalhar com o seriado inteiro, até porque a ideia não era fazer uma releitura do seriado para a moda e sim tentar recriar a mesma mensagem e sentimento que eu recebi assintindo. Lembrei de um artista/anatomista que gosto muito, o Gunther Von Hagens, que literalmente apresenta cadáveres em galerias de arte e eu queria trabalhar o corpo como um cadáver, de dentro pra fora. Por isso tentei recriar pele, músculos e ossos na passarela, mas não de uma forma tão óbvia como em estampas e principalmente sem utilizar esqueletos, não queria falar de morte usando essas referências. 
 
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Por que a coleção se chama Réquiem? 
Eu nunca fui muito boa para intitular nada, mas a ideia surgiu quando estava pensando na trilha sonora e me recomendaram ouvir Réquiem, de Mozart, inclusive réquiem deriva do latim e significa repouso. São músicas apresentadas em missas fúnebres, para o descanso dos mortos, além disso combinam muito com seriados e filmes sobre Hannibal, onde o serial killler cozinha suas vítimas ouvindo música clássica. No fim das contas nem usei como trilha sonora para o desfile, mas ficou como o nome da coleção. 
 
Qual a reflexão que Réquiem deseja provocar no público? 
A ideia era não deixar o expectador passivo ao ver minha coleção, eu queria gerar uma reflexão sobre a temática proposta e causar impacto, incômodo e estranhamento sobre a morte que é um tema geralmente deixado à margem ou que a maioria das pessoas não gosta de abordar. 
 
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Conte um pouco sobre o desenvolvimento da coleção.
Desenvolver esta coleção foi um grande desafio, pois quando você escolhe criar algo conceitual a parte divertida fica só na criação, pois colocar tudo em prática é muito trabalhoso e complicado. A modelagem foi o primeiro desafio, por ser conceitual eu não podia me basear em modelagens prexistentes, mas com a orientação dos professores e do atelier da Harumi, consegui tirar a ideia do papel. Os materias foram difíceis de encontrar, principalmente em tons diferentes de vermelhos, pra ter uma ideia os tecidos verzinados são de estofamento, o que tornou costura muito difícil, porque as tirinhas são duplas, cortadas e costuradas uma a uma para só depois serem aplicadas nas peças. Só depois desse processo eu consegui montar a roupa, que é toda entretelada, mais uma coisa que dificultou a motagem, tive que adaptar uma máquina pra poder costurar as tiras. 
 
Criar uma coleção conceitual é fácil, mas tirar do papel e confeccionar pode ser bem mais difícil. 
Como foi a repercussão do seu desfile no OCTA
Eu não sei dizer direito, pois quando entrei na passarela eu estava um tanto nervosa, mas me falaram que foi uma das coleções mais aplaudidas e uma das que mais chamou a atenção durante evento.
 
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Como é a recepção do mercado de trabalho para o designer recém-formado? Réquiem abriu portas?
Meu trabalho teve uma repercussão boa logo depois do evento, apareceu em algumas mídias sociais, me fizeram propostas pra editoriais e afins, mas a minha coleção sozinha não me colocou direto para o mercado de trabalho, principalmente porque estou em Florianópolis, onde ainda não vejo um mercado de moda tão forte, principalmente quando falamos de criação. 
 
Quais os seus próximos projetos e planos? 
Estou trabalhando em projetos de produção de fotografia, onde estou montando editoriais pra marca de lingeries de uma amiga. Além disso, quero começar a produzir ideias autorais, pois é uma área que posso trabalhar com criação, que eu acredito que seja o meu forte. 
 
O OCTA é um ótimo portfólio, mas sozinho ele não te coloca no mercado de trabalho.

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Fotos: 1 e 4 - Bruno Ropelato; 2 e 3 - Divulgação.
 
 
 

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