Entrevistas

Cacau Rhoden 3

O curitibano Cacau Rhoden é cineasta e diretor do filme Tarja Branca, produzido pela Maria Farinha Filmes. O filme faz uma analogia entre os remédios tarja preta, que parecem ser a cura imediata para a ansiedade, insegurança, medo e depressão. Então, fica a pergunta: "o que aconteceria se colocássemos uma dose de tarja branca no nosso dia a dia?". Nesta entrevista, Cacau conta um pouquinho sobre este trabalho e sua carreira. 

 

Fiz muitos amigos, tive grandes mestres, me diverti e trabalhei muito. Filmei, filmei e filmei, minha vida inteira eu filmei.
 
Como você ingressou no mercado audiovisual?
Eu decidi minha carreira muito cedo, isso foi uma tremenda sorte. Geralmente escolher o nosso ofício gera muita insegurança, medo e estresse. No meu caso aconteceu muito espontaneamente. Eu tinha 14 ou 15 anos, fui ao cinema assistir "Sonhos" do Kurosawa, sem ao menos saber que se tratava de um filme japonês. Sai da sala completamente hipnotizado. Depois de algum tempo digerindo aquela experiência tão impactante para mim, decidi: "Quero fazer isso em minha vida, fazer filmes, contar histórias, sei lá o que isso significa, mas quero fazer coisas assim". Eu nem sabia identificar que coisa era essa, não tinha a menor ideia do que era cinema e muito menos como se fazia e o que era preciso para que eu conseguisse. Ainda bem que era ingênuo o suficiente para não ter a mínima noção do quão complexo seria, pois talvez tivesse desistido. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Alguns meses depois eu estava estagiando em uma produtora. Servia cafezinho, enrolava cabos, varria estúdios. Fiz muitos amigos, tive grandes mestres, me diverti e trabalhei muito. Filmei, filmei e filmei, minha vida inteira eu filmei. Tenho sorte por ter seguido uma intuição de criança. 
 
 

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Trabalhar com cinema é uma das brincadeiras mais sérias que já brinquei.

 

Você dirigiu "Tarja Branca - A revolução que faltava". Conte um pouco sobre esse trabalho.
Tarja Branca, não nasceu Tarja Branca. Juliana Borges, a diretora de produção da Maria Farinha Filmes me apresentou aos produtores executivos, Estela Renner, Marcos Nisti e Luana Lobo. Eles estavam precisando de outro diretor, além da Estela, para filmar um audiovisual que ainda não tinha formato definido e nem tamanho, pois ela estava realizando outros projetos. Havia apenas o argumento inicial de falar sobres os brincantes da cultura popular brasileira. A medida que entrei em pesquisa, descobri que por trás disso havia uma discussão muito maior e mais profunda. Então, ao longo da pré-produção, desenvolvemos um filme que foi construído a medida que a ideia de espirito lúdico ganhava corpo, significados e valores, se tornando o tema principal do filme. O Tarja Branca é um filme que fala sobre como nos relacionamos com esse espirito que nasce com todos nós, que é livre nas brincadeiras da infância, mas não se encerra nessa fase da vida, pois nos acompanha por toda nossa existência. É algo ancestral e importantíssimo, mas que ao longo dos últimos séculos foi sendo esmagado pelo sistema, que não quer que sejamos livres. É uma forma de controle. O filme fala sobretudo de nós adultos, sobre nossas escolhas, sobre como aproveitamos o nosso tempo e o espaço. Pode parecer abstrato, mas ao assistir ao filme. Tudo fica muito simples e claro.   
 


Como está sendo a aceitação de Tarja Branca, pelo público e crítica?
No início, achei que a crítica desceria a porrada, por vários motivos que não importam mais e, principalmente, porque aconteceu justamente o contrário. A crítica recebeu muito bem o filme. Os textos foram todos muito positivos, cada um com a sua característica editorial e autoral, mas todos nos deixaram muito felizes. Tivemos uma bilheteria muito superior as expectativas e o filme ainda continua sendo exibido. Essa é uma filosofia da Maria Farinha, em parceria com o Instituto Alana: o filme permanece disponível para exibições. Isso faz parte de um movimento de transformação que não se encerra com Tarja Branca, nem começou com ele, "Muito Além do Peso" foi visto por um número assombroso de pessoas. Isso faz a diferença para mim. Me sinto muito privilegiado em fazer parte de ações que são realmente relevantes socialmente. 

Tarja Branca está sendo muito transformador, mudou a minha forma de pensar a vida. Tomei controle do metrônomo. 

Tarja Branca está disponível no iTunes, Netflix e Now. Qual a sua percepção sobre essas novas formas de distribuição dos filmes?
Bem-vindos ao futuro! A sala de cinema jamais vai morrer, assim espero. Acho que hoje existem muitas formas de distribuir filmes e todas tem a sua eficiência. Isso depende de uma rede complexa de estratégias, que cabem a cada projeto. O Tarja fez mais ou menos a tradicional. Esteve em cartaz nos cinemas do Brasil e hoje está disponível em vários países pelo iTunes e aqui no Brasil em qualquer canto poderemos assistir pelo Netflix ou pelo Now. Isso é maravilhoso! Espero que, de uma forma ou outra, todos tenham acesso ao filme. Ter o controle de assistir o quiser quando quiser é o futuro do entretenimento e da cultura. Afinal, nasceu assim! Agora o capitalismo entendeu que a escolha está cada vez mais em nossas mãos, apesar da resistência obsoleta em tentar nos obrigar a consumir o que não queremos. Talvez esse seja o futuro. O capitalismo se render ao humano. Espero que tenhamos a cultura na nossa cesta básica. 

Cacau Rhoden 2

Estou apenas começando. Quero fazer muitos outros filmes ainda. 

Quais as suas principais recomendações para quem deseja trabalhar com audiovisual? 
O Ricardo Goldenberg, psicanalista e um dos entrevistados no Tarja, citou Rilke na filmagem e foi muito esclarecedor sobre a importância das nossas escolhas. Foi mais ou menos assim, adaptando do poeta original para este cineasta: "Pergunte a você mesmo se pode viver sem fazer filmes. Se a resposta for sim, abandone essa merda e vá alegremente fazer outra coisa. Se a resposta for não, trate de filmar, de filmar cada vez melhor, só assim você será um cineasta". Acho que talento é obrigatório, não há sentido na vaidade a respeito disso. Se médicos não tiverem talento, podem se tornar agentes da tragédia. Portanto, se você é um artista, o mínimo que se espera é que tenha talento. Talento não é motivo para orgulho, é básico. O que você pode fazer com ele é que o que faz a diferença.

Quais são seus próximos planos? Você já está rodando algum outro filme?
Filmar no Brasil, não é tarefa fácil. Nunca foi. Meus planos são não estacionar e tentar fazer a montanha russa ganhar algumas retas planas para variar um pouco. 
Agora estou finalizando um filme curto, também é um documentário. Fala sobre um povo esquecido que luta por independência há 40 anos, no Norte da África. É um projeto que foi filmado em 2012, também um convite da Maria Farinha Filmes, parceria que tem me dado muito prazer. O lançamento ainda não foi feito para a imprensa, mas é muito forte e emocionante. Uma direção coletiva que assumi esse ano e estará disponível no fim de Março. Foi filmado no deserto do Saara e em alguns países da Europa. Esse primeiro filme, dará início a uma série, que contará com uma trilha sonora super especial. Uma ótima surpresa! Estará disponível no VideoCamp em breve. O lançamento será dia 17/03 na Cinesala, em São Paulo. Fiquem de olho em "WHO?". Além disso, tenho feito um pouco de TV e desenvolvendo outros projetos de documentários e ficção. 
 
 
Tarja Branca
 
 
Fonte: Tarja Branca
Fotos: Divulgação
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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