Entrevistas

CintiaDomitBittar

Cíntia Domit Bittar diz que é a moça que faz o cafezinho na Novelo Filmes, mas na verdade ela vai muito além, atuando no roteiro, produção, direção e montagem, numa equipe cheia de habilidades que se complementam. Seu primeiro curta-metragem como roteirista e diretora, "Qual Queijo Você Quer?", já soma mais de 60 festivais e 30 prêmios nacionais e internacionais, entre eles o de Melhor Curta-Metragem no Festival do Rio, em 2013. O filme está na programação do Canal Brasil, France TV, BBC Itália, TAP Linhas Aéres e na loja iTunes Store Brasil. Vem muito mais por aí, nesta entrevista ela conta sobre outros trabalho e os próximos lançamentos. 

 

Acredito que estou constantemente em processo de criação, pois quanto mais conteúdo eu consumo, mais tenho referências e ideias para criar.

Como você escolheu trabalhar com cinema?
Eu cresci assistindo a muitos filmes tanto na televisão, quanto no cinema. Nos anos 80 e início dos anos 90 muitos filmes eram exibidos na TV aberta, inclusive de terror. Desde criança, eu também frequentava muito as videolocadoras, assistindo e reassistindo fitas VHS. Ia muito com meu pai aos cinemas de rua de Curitiba, como o Cine Ritz, Cine Luz, Cine Plaza... que hoje estão todos fechados. Minha mãe também sempre incentivou e nunca censurou nada do que eu assistia. Além da cinefilia, sempre gostei muito de escrever e contar histórias. Aos 16 anos, saí de Caçador para estudar em Florianópolis. Eu pensava em fazer Medicina naquela época, mas tinha muita preguiça e dificuldade com as ciências exatas, ao mesmo tempo em que ficava em primeiro nos simulados de redação. Acabei prestando Medicina na UFSC, Moda na UDESC e Cinema na UNISUL. A única certeza que eu tinha é que eu não queria fazer mais um ano de cursinho. Não passei em Medicina por muito pouco. Se eu tentasse outra vez, provavelmente passaria. Mas acabei desencanando assim que ingressei no curso de Cinema. Com o passar dos semestres na faculdade, minha certeza só aumentava. Era nisso que eu queria trabalhar, isso que eu queria como carreira. Eu me reconectei com a criança encantada por filmes que eu era.

 

Qual Queijo Você Quer

 

E como surgiu a Novelo Filmes?
A Novelo surgiu quase como uma geração espontânea. Ao final da faculdade, havíamos meio que formado um grupo de criação composto por mim, Ana Paula Mendes, Maria Augusta Nunes e Débora Rossetto. Reuníamos-nos para sessões de brainstorm, sempre pensando em projetos para competir nos editais locais de produção. Acabamos dando um nome para esse grupo: "Novelo Filmes", ideia da Débora. Isso em meados de 2009. Ao mesmo tempo, todas nós trabalhávamos em projetos e produtoras diferentes, a Novelo não era uma prioridade. Em 2010, compramos algumas câmeras e começamos a gravar imagens para o documentário Floripa Lado B, que ainda não foi finalizado, mas conta com teasers na internet. Em Junho, recebi a notícia de que o "Qual Queijo Você Quer?" havia sido contemplado no Prêmio Armando Carreirão (Edital Funcine) e a partir daí resolvi abrir a produtora de vez. Liguei para as meninas do grupo: a Ana estava para se mudar para o Rio de Janeiro e a Maria Augusta no mestrado, então a Débora topou abrir sociedade comigo. Liguei também para o Will Martins, que também estudou conosco na faculdade, mas ele havia acabado de entrar como sócio em outra produtora. Tocamos eu e a Débora por um tempo, mas logo ela teve que se afastar, pois estava com uma filhinha pequena, então vendeu metade de sua parte para a Ana Paula e para o Lucas, meu colega de outros projetos, que sempre quis entrar na sociedade. Quando a Débora engravidou novamente, vendeu o restante de suas cotas para que entrassem a Maria Augusta, o Will e a Carol Gesser, resultando na atual da Novelo Filmes, que se mantém desde 2011.

 

A Novelo ainda está ingressando no mercado, pois ainda não produzimos ou lançamos um longa comercialmente. Conquistamos reconhecimento com "Qual Queijo Você Quer?", mas o principal desafio é manter a produtora de portas abertas e produzindo constantemente.


Conte um pouquinho sobre o cotidiano na produtora. Você participa de várias etapas dos projetos, desde o roteiro, produção, direção e montagem?
Na produtora, nós formamos uma equipe na qual cada um possui habilidades e características complementares, trabalhando em diferentes etapas e funções dentro dos projetos. Eu trabalho nas funções de roteiro, produção, direção, e montagem. Posso trabalhar assumindo todas elas em um determinado projeto ou apenas uma ou outra. Depende muito da minha identificação com o projeto e do cronograma, meu e da produtora.

 

O Tempo Que Leva

 

Como é o seu processo de criação?
Tenho o hábito de consumir muito conteúdo, seja lendo (literatura, livros sobre cinema, matérias, artigos, blogs dos assuntos mais variados), assistindo a filmes e séries, indo a festivais e encarando maratonas nas salas de exibição, palestras e debates. Por isso, acredito que estou constantemente em processo de criação, pois quanto mais conteúdo eu consumo, mais tenho referências e ideias para criar. Costumo criar a partir de fragmentos, podendo ser uma imagem, uma cena, um diálogo, um personagem ou uma situação. Então, passo a desenvolver um enredo a partir dessa semente. Ou, pode acontecer de eu acabar juntando vários desses fragmentos que pareciam isolados antes, mas que acabam formando uma única história. Para mim é muito importante compartilhar as ideias que tenho com meus sócios e pessoas de confiança, mesmo que sejam apenas lampejos. Isso na questão de roteiro e desenvolvimento de projetos. Na direção, meu processo de criação reside em agrupar essas referências consumidas até que resultem em um conceito estético e narrativo para contar a história da maneira mais interessante possível. Na montagem, não costumo fazer um primeiro corte mais grosseiro. Já vou afinando logo de início, a fim de perceber o ritmo com antecedência. De qualquer maneira, é fundamental seguir praticando e assistir a muitos filmes, ao máximo possível. De preferência no cinema, por poder levar em consideração as reações e comportamento das pessoas na sala.

"Qual Queijo Você Quer?" teve uma repercussão muito positiva, já esteve em mais de 60 festivais, recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais, entre eles o de Melhor Curta-Metragem no Festival do Rio 2013. Como você avalia essa repercussão?
"Qual Queijo Você Quer?" foi meu primeiro filme profissional nas funções de roteirista, diretora e produtora. Pois eu já havia trabalhado profissionalmente como montadora em outros projetos. Esse curta pode ser considerado um case de sucesso, pois foi um dos curtas mais comentados no ano de 2011, já que estreou no Festival de Paulínia (na época o principal do país), seguiu pra Gramado, ganhou no Rio de Janeiro, etc. Ou seja, foi passando pelos principais festivais do Brasil, frequentados por críticos dos grandes veículos de comunicação, que gostaram muito do filme e escreveram sobre. Também entrou e ganhou em vários festivais internacionais, na maioria das vezes o prêmio máximo, de melhor filme. Portanto, essa repercussão foi excelente. O filme ainda roda festivais e já foi visto por muito mais pessoas (e de tantos lugares diferentes) do que eu jamais poderia imaginar lá atrás.

 

 

Fale sobre a participação em festivais e a repercussão que isso gera em torno dos trabalhos apresentados.
A participação em festivais é muito importante na carreira do curta-metragem, já que essa é, basicamente, sua primeira janela de exibição. Nos festivais o filme tem a chance de ser visto por formadores de opinião, além do público em geral. São críticos especializados, outros realizadores, programadores de festivais, canais de TV... Várias pessoas em contato com a sua obra. Meus filmes já participaram de festivais que levaram a serem exibidos em outros, por exemplo. Também é muito bom quando sai alguma notícia sobre o filme, pois tudo vai contribuindo para a carreira do mesmo e para o currículo dos profissionais e da produtora.

 

O Segredo da Família Urso

 

Você também produziu "O Tempo Que Leva" e "O Segredo da Família Urso". Conte um pouquinho sobre o desenvolvimento desses projetos.
Ambos os curtas estão em festivais e neles eu trabalhei no roteiro, direção e montagem, além de produzir. "O Tempo Que Leva" é um drama com pitadas de ficção científica, cuja trama se desenrola em uma Florianópolis apocalíptica. É uma produção totalmente independente, sendo financiada a partir de prêmios em dinheiro que recebemos com o "Qual Queijo Você Quer?" em festivais mundo afora, diversos apoios e parcerias, produções associadas e product placement. O curta estreou nacionalmente como Hors Concours no 15º Festival do Rio e fora do Brasil no 54º FICCI - Festival Internacional de Cine de Cartagena de Índias. Acabou de ser exibido pela primeira vez em Florianópolis no 18º FAM - Florianópolis Audiovisual Mercosul, onde levou o prêmio de Melhor Direção de Arte. Mayana Neiva interpreta Jamila, a protagonista do filme. Também compõem o elenco os atores Ivo Müller (ator na coprodução "Tabu", premiada no Festival de Berlim), Amélia Bittencourt e Henrique César - os dois últimos são os atores do "Queijo". Já o projeto do "O Segredo da Família Urso" foi contemplado no Prêmio Catarinense de Cinema, na categoria "curta-metragem", no valor de R$ 120.000,00. É um curta que aborda a ditadura militar brasileira através dos olhos de uma criança, com elementos do terror e do suspense. Foi gravado em uma casa em Lages, em Junho de 2013 e acabou de estrear no 10º Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o maior festival do gênero da América Latina. No elenco, temos a atriz Liz Comerlatto, que interpretou a protagonista Georgia, menina de 8 anos de idade. Também estão Gilda Nomacce (dos filmes Trabalhar Cansa, Quando Eu Era Vivo), Otto Jr. (do filme Abismo Prateado), o catarinense Cleístenes Grött e, novamente, Amélia Bittencourt. Sou também uma das produtoras do longa documental "Nem Caroço Nem Casca", dirigido por meu sócio Will Martins, que ganhou o prêmio de Melhor Filme no 34º Festival Guarnicê de Cinema e está na programação do Canal Brasil. Vale dizer que a Ana Paula Mendes e a Carol Gesser também são produtoras dessas obras.

“O Segredo Da Família Urso” é um curta bacana pra quem gosta de filmes com suspense e terror. Espero receber comentários distintos e de várias pessoas, pra poder compreender melhor como se deu a recepção do filme entre os espectadores. 

Quais os seus próximos projetos?
Tenho um curta para dirigir este ano ainda, o "Quem Não Tem Cão", com roteiro da sócia Maria Augusta V. Nunes. Da mesma roteirista tem o longa-metragem "Quebranto", que devo dirigir no próximo ano. Além disso, nos próximos meses estarei montando o documentário "Ao Som de Um Chamamé", do Lucas de Barros e escrevendo novos roteiros pra Cinema e séries. Tudo isso pela Novelo Filmes. Também tenho produzido cursos na área do audiovisual, em parceria com o Vilaj Coworking, estimulando a capacitação profissional do setor em Florianópolis e região. Ah, e também tem o longa "O Aniversário de Pedro", mas o título ainda é provisório. Se tudo der certo, rodaremos ainda neste ano. É bastante coisa, né...

 

Equipe de O Tempo Que Leva

 

Fotos: Divulgação
Mais informações: O Tempo Que LevaQual Queijo Você Quer? e O Segredo da Família Urso.

 

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