Entrevistas

Denise Duarte Perfil

Denise Duarte, professora universitária de cinema e audiovisual, roteirista, autora teatral e especialista em cinema na programação da Rádio Nacional FM Brasília (EBC). Tem especialização em Roteiro para Cinema e mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). 

Idade: 53

Cidade: Santa Maria (RS), morando atualmente em Brasília (DF).

Quais as dificuldades de ser um roteirista no mercado brasileiro?

Uma primeira dificuldade refere-se ao fato de não haver no país a figura do agente, comum no mercado externo e fundamental para fazer o elo entre o roteirista e diretores, produtores, etc. Outra questão é o pouco valor que se dá ao roteirista de cinema no Brasil. Enquanto no exterior, o roteirista é valorizado, aqui isso não ocorre. Não raro, atores reconhecidos no mercado internacional aceitam um projeto cinematográfico por ter ele a assinatura de um bom roteirista. No Brasil, também é comum um diretor de cinema convidar um autor de novelas para escrever o roteiro para seu filme. E isso, muitas vezes, acaba em tragédia. O resultado final é um filme com cara de telenovela. Ou seja, o roteirista de cinema acaba tendo que com competir com o roteirista de TV, que tem mais visibilidade no país. Por todas essas dificuldades, vemos não só no Brasil roteiristas que passam a dirigir e produzir seus próprios filmes. De exemplos históricos, como Billy Wilder e Woody Allen, a prática é muito frequente.

Como é seu processo criativo?

Não tenho tanta experiência com a escrita para roteiro, como tenho com a escrita acadêmica e/ou literária. Mas o que observo é que escrever um roteiro de longa metragem é muito mais duro e sistemático do que a escrita artística. No caso do roteiro, é preciso observar detalhes. É uma técnica e, por isso, torna-se, muitas vezes, cansativo. Escrevi um roteiro de 155 páginas, um roteiro adaptado, o que durou cerca de seis meses, dado que tenho outras atividades. Foi um árduo trabalho chegar ao primeiro tratamento. Antes dele, fiz um longo argumento e uma escaleta com duas versões temporais, além dos detalhados perfis de personagens. Ao longo de dois anos fiz mais sete tratamentos no roteiro. Atualmente, estou preparando mais quatro tratamentos. Então, sobra pouco espaço para dizer que a escrita de um roteiro é arte. Ao contrário, é muito trabalho.

Qual a área do seu trabalho que você mais gosta?

No caso da construção do roteiro, adoro o início, ou seja a pesquisa. Gosto também da etapa de construção dos personagens, o que me aproxima do teatro. E adoro fazer a escaleta. Acho todas essas etapas muito criativas. Depois que passamos para o roteiro, começamos a etapa técnica, que considero sempre mais árdua.

Denise Duarte

Qual é seu filme nacional preferido? E o roteiro?

Não tenho um filme nacional preferido. Mas gosto muito do escracho e do deboche que existe em 'O Bandido da Luz Vermelha' (1968), de Rogério Sganzerla, grande representante do Cinema Marginal. Eu também não deixo de rever 'Lavoura Arcaica' (2001), de Luiz Fernando Carvalho, roteiro adaptado com muita poesia do livro de Raduan Nassar. Mas meu roteiro nacional preferido continua sendo do filme 'Cidade de Deus', escrito por Bráulio Mantovani. Ele é um divisor de águas no roteiro brasileiro, pelas inovações trazidas pelo Bráulio ao filme, como a montagem introduzida já na estrutura do roteiro e o dinamismo da construção narrativa. Acho que o Bráulio Mantovani é o grande responsável por recriar e inovar o roteiro para cinema no Brasil.

Como seria um ambiente de trabalho perfeito para você?

Geralmente roteirista não tem um local físico, a maioria escreve em casa mesmo.

Quais dicas você pode dar para a formação de um bom roteirista?

Fazer cursos livres de roteiro com profissionais qualificados. Há também bons cursos de pós-graduação no país na área de roteiro e também no exterior. Além disso, o bom roteirista de cinema deve gostar de ler muito, ouvir histórias, ir ao teatro, ao cinema, a exposições. Acho também importante o roteirista frequentar o set de filmagem, interagir com atores e com a equipe, fazer-se presente. É um enorme aprendizado para o roteirista. 

 

 

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