Entrevistas

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Entre um festival e outro, o diretor Mauricio Osaki tirou um tempo e conversou com o Exib.me sobre a sua carreira, visões e o premiado curta "O caminhão do meu pai". O filme teve sua première em 2013 no Festival de Berlim, percorreu festivais como o 30º Busan International Short Film Festival, Palm Springs Short Fest e Festival Internacional de Cine de Huesca-Spain. A devida repercussão internacional garantiu a inscrição do trabalho como potencial candidato ao Oscar de Melhor Curta de Ficção 2015. A narrativa, também escrita por Mauricio, expõe um dia de uma menina vietnamita ajudando seu pai a cobrar passagem dos agricultores transportados em seu caminhão. Os minutos rodam e as telas exibem a pequena May Vy descobrindo que certo e errado são conceitos amplos.

Gosto deste tipo de cinema sobre pessoas. As pessoas não são planas, podem reagir e se revelar das mais diferentes formas. 

Quando surgiu o interesse pelo cinema e como foram os seus primeiros passos na carreira?
Eu cresci viajando com meus pais e algo que sempre me tocou foi o fato de constantemente frequentar o cinema com eles desde pequeno, nas mais remotas cidades do Brasil. Os filmes sempre me fascinaram e eu sabia que um dia eu também iria compartilhar minhas histórias com a intensidade que o audiovisual proporciona, não somente as que eu vivi, mas principalmente as que me tocaram de uma forma ou outra. Então quando voltei a São Paulo entrei na ECA (Escola de Comunicações e Artes) e a partir de então comecei a ter meu primeiro contato com a realização de cinema.

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Quais foram as principais influências absorvidas na sua formação acadêmica na NYU Tisch Asia?
Primeiramente o fato de eu ter vivido na Ásia e passado bons anos por lá, acho que isso terá sempre uma influência na maneira como eu vejo o mundo e, portanto, nos meus filmes. Também é parte da minha história, uma vez que meus avós paternos vieram do Japão. Mas a NYU foi fundamental na minha formação, sobretudo como roteirista e diretor de atores. Além disso, me permitiu um contato profissional com cineastas que eu admiro e respeito muito como Todd Solondz (Happiness), Seith Man (The Wire), entre muitos outros. NYU Tisch me abriu muitos horizontes, meu projeto final, que estou preparando no momento, deverá ser rodado na China e meu primeiro longa-metragem, se tudo der certo será rodado no Vietnã, com produção da Sara Silveira.

Como ocorreu o processo de pré-produção para que "O Caminhão do meu pai" resultasse no mais próximo do articulado?
Eu e alguns colegas da NYU mudamos para Hanoi, tão logo nossas aulas acabaram. Alugamos uma casa no centro, fizemos amizade com realizadores locais e tentamos absorver tudo que nos era apresentado. Acredito que a decisão de rodar o filme com atores locais, falando em vietnamita, foi receptivo aos acasos da produção, tudo isso contribuiu substancialmente para o resultado final. Eu gosto de pesquisar muito sobre os personagens e o principal da pré-produção foi ter tido tempo para este aspecto, que é a essência do filme, os personagens e como os atores os vivem.

O Brasil é um país enorme e divereso, essa vivacidade merece ser vista nas telas também, acho que ainda há muito a ser explorado.

Quais foram as maiores dificuldades e vantagens em realizar a primeira coprodução Brasil-Vietnã?
Dificuldades foram muitas, pois era algo novo para todos nós, as metodologias de produção, de filmagem, comunicação, tudo demorava mais que o normal, afinal eram quatro nacionalidades diferentes no set, mas ao longo de toda produção foram umas cinco, entre brasileira, vietnamita, americana, da Thailandia e Taiwan. Entre as vantagens acho que é poder sentir a força de uma narrativa cinematográfica em um set onde apesar de falarmos diferentes idiomas, quando rodávamos um take e assistíamos a cena, todos entendiam se funcionava ou não. Naquele momento não eram necessárias palavras, traduções, as imagens bastavam.

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Sob um olhar cinematográfico, onde estão as maiores semelhanças entre os vietnamitas e os brasileiros?
Para mim, acho que tanto eles quanto nós, de maneiras distintas, aprendemos a absorver influencias culturais e nos apropriamos disso. Em Hanói, por exemplo, eles sofreram invasão francesa, americana, chinesa e hoje são independentes, mas é possível ver ainda traços de todas estas outras culturas. Do ponto de vista cinematográfico, ambos somos países ainda na periferia, onde os cineastas trabalham de maneira independente, fazendo filmes de baixo orçamento e enfrentando uma concorrência externa muito forte. Ainda assim, temos conseguido produzir filmes e o mais relevante é que há interesse em nossas produções. Portanto, eu acho muito importante este intercâmbio e espero que seja mais cultivado e possamos criar mais projetos juntos.

Eu queria fazer um filme de personagens, de pai e filho. Acabou virando um filme de pai e filha, mas é um filme sobre relacionamento. 

A pequena protagonista Mai Vy foi descoberta ao acaso para o elenco do filme, como que esse encontro modificou o decorrer das produções?
Estávamos com dificuldades enormes em encontrar um garoto para fazer o papel de filho. A situação chegou a um limite, por conta dos prazos de produção. Então começamos a buscar crianças, meninos ou meninas. Foi quando visitamos esta garota, que trabalhava com a mãe depois da escola, vendendo noodles na porta de casa. Ela é uma pessoa incrível e muito da força do filme é a energia desta garota, a Mai Vy.

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Depois de vencer o festival americano Cinequest, “O Caminhão do meu pai” teve direito de participar da seleção dos candidatos ao Oscar 2015, na categoria Melhor Curta de Ficção. Como estão os preparativos e qual o caminho para que o curta represente o cinema brasileiro na premiação?
Fiquei muito surpreso com o sucesso que o filme fez ao redor do mundo e nos Estados Unidos, ganhamos um prêmio no prestigiado festival de Palm Springs, na California, melhor curta no Festival de Cinema do Brooklyn, NYC e no Cinequest, que nos dá a chance de inscrever o filme para concorrer a uma indicação ao Oscar. Eu encaro como um festival de cinema, vamos mandar o filme e nunca sabemos como vai ser recebido. O importante é que o filme possa circular, isso que me deixa satisfeito.

Voltei recentemente ao Brasil e me surpreendi positivamente com os avanços na legislação e fomento do audiovisual por aqui, principalmente para a produção de séries de TV. Esta área é um campo muito rico, adoraria planejar algum projeto em TV também.

O que é essencial para quem anseia uma carreira no cinema? 
Assistir filmes, ir ao Festival Internacional de Curtas de São Paulo ver curtas, são algumas dicas, mas penso que não há fórmulas. Eu ainda estou procurando meu caminho, construindo minha carreira. Como diz Nietzsche: "Você tem o seu caminho. Eu tenho o meu caminho. Quanto ao caminho exato, o caminho correto, e o único caminho, isso não existe".

 

Fonte: imdb.com
Fotos: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

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