Entrevistas

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Quando se fala em talentos da nova MPB nos vem de imediato a figura desta cantora, que em 2009 lançou seu segundo disco - Vagarosa - e conquistou o reconhecimento da crítica internacional. A Revista Época a destacou entre os 100 brasileiros mais influentes de 2009. A jovem cantora vendeu mais de 25 mil cópias na Europa e 100 mil nos Estados Unidos. Céu é filha de Edgard Poças, maestro e compositor brasileiro. Muito jovem morou em Nova York, trabalhou em bares e teve empregos variados como faxineira, garçonete e até guardadora de casacos. Enfrentou problemas financeiros e provou que o talento vem de dentro, vem da força e do amor. Acompanhamos o show da cantora em Florianópolis (SC), onde ela interpretou um dos discos mais importantes da história: Catch a Fire, de Bob Marley. Céu foi ovacionada por uma plateia de aproximadamente duas mil pessoas e aplaudida a cada música. Nós conversamos com ela, confira como foi o bate-papo. Esperamos que gostem!

 

Você nasceu num cenário artístico/musical. O que mais marcou sua infância e como isso influenciou sua carreira?
A minha influência realmente veio do berço, por conta de eu ter crescido numa família de músicos de longa data, não só meus pais, mas meus avós, enfim tem muita gente ligada à música na minha família. Acho que vem daí, mas até fazer da música uma profissão demorou um pouquinho. Eu estava na adolescência quando tomei essa decisão, aí não voltei mais atrás. Foi uma decisão bem firme, apesar de eu ter fugido um pouco disso, aos 14 anos eu realmente percebi que era o que eu queria.

Sabia exatamente como é difícil viver de música, então tentei fugir, relutei um pouquinho, mas o bichinho da música me mordeu e não teve jeito.

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Sua música encontra com o reggae, dub, eletrônico, afrobeat e samba. Essa junção de estilos aconteceu naturalmente?
Foi tudo muito natural, assim como em toda a minha vida foi tudo muito natural. Tenho uma intuição muito forte, consigo ouvir e seguir essa intuição. Nunca pensei em me tornar compositora, aconteceu naturalmente depois que estudei música, percebi que eu queria cantar coisas minhas, escrever e tal. Já com 17 anos comecei a escrever, ler, estudar canto lírico, canto popular. Com 18 anos eu fui morar fora e esse distanciamento de tudo me ajudou muito. Quando estamos longe de casa, da nossa vida cotidiana é mais fácil olhar pra nós mesmos. Lá eu percebi que queria compor e fui alinhando as coisas, melodica e ritmicamente. Foi tudo assim, muito natural. Claro que tem as influências, coisas da família, a música brasileira, coisas da Jamaica, música africana, jazz, rock, quando vi era isso. Mas não consigo definir gêneros, ou dar nomes, pra mim é: música!

A gente sempre tem um disco do momento, agora por influência do meu marido, estou escutando muito um disco do William Onyeabor. Ele é um cara da África, que toca um afrobeat meio disco.

Qual a principal diferença entre a Céu que aos 18 anos foi morar em Nova York e a Céu de hoje?
Experiência! Tempo, rodagem, acho que é isso. Eu aprendi. Aprendi bastante. Aprendi muito, na raça mesmo. Eu nunca tive um esquema glamouroso, com estrutura grande. Ano que vem vou completar 10 anos de carreira e sempre foi assim. Sempre tive uma estrutura mais parecida com a do rock, esse lance de fazer um show atrás do outro, com uma estrutura muito simples, sem cenário, sem nada, só com a galera mesmo. Eu sempre optava por ter sempre os mesmos músicos, então eu fui aprendendo e isso gera muita experiência. Acho que eu realmente aprendi, mudei e amadureci.

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Você já soma quatro indicações ao Grammy, entre elas a de artista revelação. Você considera que a opinião do público e da crítica influenciam o seu trabalho?
Nunca me prendo a uma única coisa, poque minha profissão tem milhões de coisas que vão aparecendo. A questão do palco, se é tímida ou não é tímida; a questão do segundo disco, se faz ou não faz; a questão da crítica, liga ou não liga… se parar pra ficar olhando cada coisa você vai enlouquecer e o comprometimento com o que de fato é importante vai se dissipar. O que eu fiz foi seguir, mas sempre com respeito. Respeito à música e respeito a mim, ao que eu posso fazer por isso. Acho que é por aí, as pessoas talvez percebem que eu tenho comprometimento e eu acho isso legal. Meus fãs geralmente são muito legais, são pessoas que não tem uma histeria, um ou outro talvez, mas no geral é uma galera que se sente próxima e eu acho isso demais.

Eu sou super a fim de participar de outros projetos, gosto disso porque me tira da minha zona de conforto. Então participei de projetos paralelos com Nação Zumbi, BNegão, Fernando Catatau. Tudo que eu participo tem a ver muito comigo.  

Conte um pouquinho sobre o ‘Catch a fire’, onde você interpreta o clássico disco de Bob Marley.
O Ramiro me chamou pra fazer, ele é uma pessoa que conheço há muito tempo. Fiquei super feliz que ele tenha me dado essa responsa, mas ao mesmo tempo fiquei super tensa também (risos). Tomei como uma etapa nova, um novo estudo e realmente fui a fundo. Pensei bastante, já conhecia muito as músicas, mas escutei novamente as duas versões do disco e topei. Tô felizona, amando muito fazer. Também tô surpresa com a demanda que gerou. Por onde eu passo a recepção é incrível, todo mundo muito a favor. É um pouco jogo ganho, porque são clássicos, todo mundo ama as músicas, mas eu sinto que as pessoas são a favor de ter uma noite bonita. Afinal, nunca se ouve um clássico ao vivo, então acho que o público já vai entusiasmado.

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E pra você quem são as revelações do momento, na música?
 
Ahh tem tanta gente boa. Mas agora lembrei dessa menina, que eu achei muito fofa, a Lorde. Pela força de palco, o visual. Não é o meu som, não é o meu tipo, mas achei muito bonitinho uma menina de 17 anos subir num palco vazio, encarando aquela plateia imensa, com aquele cabelo selvagem, de calça, mão pintada de preto, enfim, achei bem interessante. Na música brasileira tem o Metal Metal que eu acho legal, tem tanta coisa boa. A minha amiga Anelis Assumpção, que vai lançar um disco bem logo, eu já ouvi e tá lindo.

Quais são seus próximos projetos, o que você espera do futuro?
O próximo projeto é, principalmente, o DVD. Esse é o meu foco agora e tô super feliz porque é o primeiro. Tenho que passear por todos os trabalhos pra lançar esse DVD. Com certeza o DVD sai esse ano, que é um ano bem intenso, mas eu espero que saia lá por setembro. 

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Pra quem está começando a carreira agora, tem algum conselho ou incentivo?
O mais importante é a pessoa entender o que ela realmente quer, porque a música tem milhões de caminhos, são muitos e todos altamente respeitáveis e louváveis. Eu acho que ouvir o que de fato você quer é difícil. Entender o que tem a ver com você. Isso é difícil, é um caminho, quase um estudo pra dentro de si mesmo. Acho que o mais importante é isso: tentar achar esse lugar. Quando você deixa vir de dentro, você passar a criar algo e passa a entender o que você pode fazer com essa coisa incrível que é a música. Você pode transformar, pode reproduzir, mas é importante entender o que é seu nesse pedaço enorme.

 

 

Fotos: 1,2,3 e 5 Thiago Teles; 4 Divulgação. 
Colaboração: Luciano Britto

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