Entrevistas

Daniel Kuhnen Perfil

Daniel nasceu e foi criado no templo da música eletrônica da América do Sul, mais tarde, tornou-se DJ residente e herói local. Ele é conhecido como o cara certo para preparar a pista de dança. É um dos melhores DJs da nova onda brasileira de aficionados eletrônicos. 

 

O que te fez chegar e continuar na carreira de DJ e Produtor?

A carreira de DJ começou com o desejo de realizar um sonho da adolescência: respirar e viver de música. A brincadeira foi ficando séria quando percebi que realmente poderia fazer isso. Desde o início queria ter uma banda de música eletrônica, produzir, tocar ao vivo e correr riscos no palco. Esses dias achei uma entrevista que dei em 2005 para um jornal, já falando nisso! Demorou mais do que eu previa, mas meu reencontro com o Leo Piovezani e o início do Elekfantz são hoje as grandes motivações da minha carreira. 

Fale um pouco do Elekfantz, seu novo live em parceria com o músico Leo Piovezani. Conte como começou e seu primeiro tour pela Europa.

Daniel Kuhnen Elekfantz LogoEu e Leo nos conhecemos há quase 20 anos, chegamos a tocar na mesma banda em algumas oportunidades naquela época. Anos depois nos reencontramos e começamos a produzir juntos. As primeiras músicas que trabalhamos foram algumas ideias que o Leo tinha iniciado com samples do Muddy Waters, que ele tirou de um vinil muito antigo. O blues era nossa origem e a ideia de fazer algo eletrônico com isso nos animou. Viajei com o Gui Boratto algumas semana depois e mostrei uma música para ele. Ele adorou e nos convidou para terminá-la em seu estúdio, onde regravamos as guitarras e outros instrumentos. No mesmo dia ele enviou para o Michael Mayer da Kompakt. Em menos de uma hora ele já tinha escutado e respondido, também adorou e queria a nossa música! Em junho de 2012 ela foi lançada somente em vinil picture, numa edição limitada e super especial. Muitos amigos começaram a tocá-la, inclusive o Gui. Quando a colocamos em nosso Soundcloud ela se espalhou pelos blogs e em poucas semanas tivemos 100.000 plays. Nessa época já tínhamos musicas para um álbum e resolvemos encarar o desafio de produzir um. Deu muito mais trabalho do que imaginávamos, mas finalmente terminamos e vai sair pelo selo D.O.C., que é do próprio Gui, ainda neste semestre. Em outubro do ano passado estreamos o nosso live na Europa e em novembro trouxemos o show para o Brasil. Tem sido muito interessante experimentar as musicas do disco na pista. É uma história cem por cento autoral e muito diferente do que faço como DJ. Na mesma época lançamos Diggin' On You, o primeiro single do álbum. Ela foi muito mais longe do que poderíamos sonhar, estamos muito felizes com tudo que está rolando!

Daniel Kuhnen Elekfantz 1

Daniel Kuhnen Elekfantz 2

Qual sua maior ambição profissional e como ser humano?

Como artista, fazer música que eu possa me orgulhar daqui a dez, vinte anos. Música que eu possa mostrar para meus filhos e eles para seus amigos. Como pessoa, viver com amor e harmonia com minha família e amigos mais próximos, independente da distância.  

Fale um pouco da sua trajetória. Influências, o início, residências em clubs consagrados e sua tour mundial com o Gui Boratto.

Tudo aconteceu muito rápido na minha carreira. Aprendi e comecei a tocar na casa de amigos, no verão de 2005, seguindo os passos do DJ Claudinho do Valle, minha grande referência na época. Pouco mais de um ano depois  me tornei residente do Warung,  que já era considerado um dos melhores clubs do mundo e o sonho de consumo de todos os DJs. Devo minha carreira a essa relação íntima com o club. Lá aprendi a importância de um bom warm up para uma noite perfeita e me dediquei a aperfeiçoar essa arte. Até hoje é o momento da noite que mais gosto de tocar. O Warung também me indicou para o meu primeiro agente: Jota da Efeelings, de Curitiba, com quem anos depois fui para a hoje Plus Talent, maior agência do país. Lá conheci o Gui Boratto, de quem era fã e que já viajava o mundo inteiro com seu live. Começamos a tocar juntos em diversas festas pelo Brasil e nos tornamos amigos. Em 2010, decidi passar férias na Europa e como o Gui passava a temporada excursionando por lá já tinha uns anos, pedi algumas dicas. Foi então que decidi fincar base em Barcelona como ele e sua família. Algumas semanas depois conversamos novamente e ele me convidou para trabalhar como tour manager dele no verão. Até então ele sempre viajava sozinho, mas como seriam quase trinta apresentações em pouco menos de dois meses a Kompakt decidiu que seria interessante ter alguém para ajudá-lo com os equipamentos e toda a logística de uma turnê desse tamanho. Foi uma experiência e tanto, nos dois anos seguintes fui novamente, aí não só como tour manager mas também tocando e preparando a pista para o Gui em todos os clubs que passamos. Nesse meio tempo reencontrei o Leo, começamos a produzir e novamente mostrei para o Gui durante as nossas andanças, o resto é história. Claro que a proximidade ajudou, mas conheço ele bem e sei que ele não teria nos ajudado e lançado nossas músicas se não tivesse gostado de verdade. 

O que você aconselha para novos profissionais do ramo?

Quem sou eu para sair por aí dando conselhos, mas pelo que sinto: hoje só discotecar não é mais suficiente. Produzir, também não. Tem que fazer tudo isso muito bem e ainda ser original, pelo menos tentar acrescentar algo.  

Qual o papel do criador na sociedade contemporânea?

Qualquer forma de arte pode servir a diversos propósitos. Pode nos fazer escapar da realidade ou também questioná-la. Para viver o mundo de hoje, precisaremos disso cada vez mais. 

Daniel Kuhnen1

Em que aspectos você considera que sua música possa intervir na sociedade e no comportamento jovem como um todo?

Já vivemos revoluções tendo a música como um dos principais veículos em diferentes partes do mundo e em diversas épocas. Com o avanço da internet, mídias sociais e a comunicação direta e instantânea que temos hoje, não sei se veremos isso novamente. 

Num retrospecto do cenário de música eletrônica no Brasil percebe-se a carência de artistas com uma obra vasta e consolidada em nível mundial. Por que você acha que esse fenômeno é tão presente? O que poderia ser feito para impulsionar o surgimento de novos artistas e fomentar os artistas que já estão no mercado e não conseguem se destacar no cenário mundial? 

Estamos começando a criar cada vez mais por aqui. Nossa cena está crescendo muito e tem gente do mundo inteiro de olho em nós. Temos que aproveitar esse momento para consolidar novos artistas. O Gui Boratto criou seu selo D.O.C. também para isso, encontrar e ajudar novos artistas brasileiros, através de toda experiência e respeito que conquistou com seu trabalho autoral. 

Qual parte da produção mais te dá prazer? A concepção da parte rítmica? Vocais? Arranjos e melodias? Mixagem?

Na minha dupla com o Leo ele é o principal compositor. Compõe o tempo inteiro e trás diariamente para o estúdio ideias e músicas novas. No início da nossa parceria trabalhamos muito para encontrar uma sonoridade que tivesse a nossa cara, tanto nas composições como nos timbres. Não queríamos copiar ninguém, mas ao mesmo tempo queríamos copiar todos. Era colocar toda a nossa história musical, todas as nossas referências no liquidificador e tentar tirar de lá algo diferente e sincero. Nesse caminho descobrimos que o Leo, baterista de formação, era um ótimo cantor e que eu conseguia escrever algumas letras. A composição e produção inicial fazemos no nosso estúdio, já a mixagem e produção final no estúdio do Gui Boratto. O processo inteiro tem sido fascinante e dessa forma temos aprendido muito juntos. 

Durante esses nove anos de carreira, qual música você teve mais prazer em tocar?

Essa pergunta é bem difícil, são tantas que gosto muito. Sempre que consigo tocar o remix do James Holden para 'The Sky Was Pink', do Nathan Fake eu e a pista nos transportamos para outro lugar, único. Mas tocar 'Beautiful Life', do Gui Boratto com a orquestra Camerata Florianópolis no teatro, sem dúvida foi o momento mais emocionante da minha carreira.

Quais os artistas que você mais admira na cena atual da música brasileira?

Gui Boratto, Digitaria, Ney Faustini, HNQO. Estamos num momento muito bacana, com cada vez mais gente fazendo trabalho original e autoral.

 

 

 

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