Entrevistas

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O curso de teatro foi o ponto de encontro para os cariocas Frederico Demarca, Rafael Lorga e a natalense Juliana Linhares, a música foi o que os uniu e originou o Projeto Pietá. Os três já tinham carreiras musicais em andamento, com a união criaram o seu estilo musical próprio: música popular regional original brasileira acústica de jardim, tudo isso num repertório transitório, transeunte, transitivo, por vezes autoral, por vezes saudação. Com música boa e esse bom humor, os amigos foram chegando, a sala foi enchendo, o jardim ficou pequeno e eles ganharam os palcos, as plateias e os prêmios. Como eles dizem: "a casa está aberta, leve o que quiser".  

Como surgiu a banda Pietá e como foi a escolha do nome?
A gente se conheceu no curso de teatro da Unirio em 2011. Nos grudamos pra fazer cenas e trabalhos juntos. Com o tempo, fomos nos conhecendo melhor e descobrimos que além do teatro tínhamos também a música em comum. Marcamos um som na casa do Rafa e pronto! Marcamos outros encontros, abrimos o ensaio e os amigos mais próximos foram chegando, trazendo outros amigos. Quando percebemos, a sala tava cheia e a gente já era um trio. Aí não teve jeito. Tava na hora de batizar a criança e Pietá surgiu pra acabar com a nossa angústia pela procura de um nome. Foneticamente, nos apegamos à palavra e depois fomos nos apropriando dos símbolos. Pietá é piedade em italiano. É também Maria com o filho no braço para os cristãos. É uma imagem poética e forte. As Pietás foram representadas por vários artistas ao longo dos séculos. Essa é a nossa representação.

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O que é o Jardim Pietá?
O Jardim Pietá é um evento vespertino que a gente vem organizando em parceria com o produtor Fábio Gonçalves. É um quintal em Santa Teresa, onde passamos a tarde tocando e para cada edição convidamos novos músicos. Já participaram Mohandas, Claudio Nucci, Beto Lemos, Geraldo Junior, Jefferson Gonçalves, Joana Queiroz, André Muato, Alberto Americano, Marcelo de Lamare, entre outros. Além disso, são vários os amigos que chegam somando com participações espontâneas no dia (ou por pressão nossa, no calor do momento, admitimos). O início, o fim e o meio é sempre movimentado por DJs parceiros como o Montano e o Mulatu. Além, claro, do nosso supremo VJ Canavarro, que adora atacar de DJ no nosso Jardim. Tem comidas super especiais, bebidinha e a festa dura a tarde toda e adentra a parte criança da noite. Estamos com algumas ideias e em breve apresentaremos o Jardim também em novos formatos!

Perdemos um bom tempo tentando classificar nosso estilo musical e chegamos a uma definição clara: música popular regional original brasileira acústica de jardim num repertório transitório, transeunte, transitivo por vezes autoral, por vezes saudação.

Nestes dois anos de Pietá vocês já fizeram shows em diversos lugares, quais foram as apresentações mais marcantes?
Todo o início na Casa do Rafa (o Teatro de Véspera), no Teatro Alberto Maranhão e no Festival MADA em Natal. Também no WebFestValda, no Circo Voador, Pedra do Sal, com o Mohandas, num fim de carnaval na Praça São Salvador, nas duas edições do Pietá de Carnaval, em Santa Teresa, na Praça do Suspiro em Friburgo, Museu da Liturgia em Tiradentes, Baden, UERJ, Parque das Ruínas... como adoramos convidar outros músicos para estarem com a gente, cada show é muito especial.

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Como é o cotidiano da banda e o processo criativo de vocês? Como surgem as composições?
Nosso ninho é o Teatro de Véspera, lá ensaiamos e decidimos tudo. Normalmente as músicas são feitas por cada um e trazidas pros ensaios. Tanto o Rafa, quanto o Fred tem vários parceiros compositores, Marcelo Fedrá, Elvis Marlon, Tiago de Melo, Renato Frazão, entre outros. Fred na maioria das vezes divide letra e melodia, um faz a melodia e outro a letra, quando ele não faz tudo sozinho. Rafa compõe junto, sentam ele e Elvis e começam a tocar até a música sair. Depois eles trazem as novas composições e a gente vai tocando e percebendo se rola uma intimidade da música com nosso formato, com a nossa cara. E vamos tocando. A escolha do repertório é bem livre, diversa, todos trazem sugestões e definimos juntos. Ainda não temos uma composição de parceria entre nós três, mas isso deve acontecer logo, logo. 

Nossa principal influência é a música brasileira, dos primórdios ao que está por vir. Dos músicos que escutamos desde bebês até os vários novos grupos e bandas contemporâneos nossos e parceiros que tem feito muita música boa.

Vocês também buscam inspiração no teatro e cinema?
No teatro, cinema, dança, na rua, fotografia, artes plásticas. Tudo que nos chacoalhar os sentido é inspiração. Nem só na arte. Mas no nosso caso o teatro é fonte direta de inspiração. Desde decorar a música a improvisar quando esquece. Ajuda a falar alto, gesticular grande, sofrer imenso, discutir errado, tentar convencer o outro que tá certo. Ajuda a tirar sangue de palavra, debater, escolher formas, tons, gostos e cores. Faz a gente criar subtexto, dialogar com as músicas. Pensar imagens dentro de uma unidade, organizar a cena. Por fim, desconstruir tudo. No fundo trata-se mais de performatividade que de teatralidade. A gente é a gente mesmo e a gente adora uma cena.

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Como vocês avaliam o mercado fonográfico atual?
A gente acredita no trabalho independente como forma de sobrevivência. Existem dois lados nisso, de um lado está o fato da gente construir nosso trabalho com autonomia, da forma que a gente acredita, com pessoas especialmente parceiras e escolhidas, ocupando os lugares que mais nos interessam sem ter que nos adequar tanto a antigos padrões de atuação e a certos circuitos da cena musical pré-estabelecidos. Por outro lado, são milhares de projetos e já não se pode esperar sentado pela ligação de uma gravadora ou por subsídios financeiros de grandes empresas, por exemplo. O Pietá, assim como outras bandas independentes, acabou criando seu próprio sistema de produção. Não se pode mais ser artista sem se comprometer com a comunicação e viabilização do seu projeto. Somos cinco. Três músicos e dois artistas, Clarice Lissovsky e Lucas Canavarro, que cuidam da comunicação, cenário, identidade visual, vídeos fotos e etc. E seguimos os cinco, tateanto pela produção, somando por vezes com outros produtores, para ir construindo essa estrada. Fazemos sempre questão de colocar nosso som nas esquinas, tocar. Chegar ao público não só pela internet que abre um novo mundo, mas também pela potência do ao vivo.

Quais são os 'discos de cabeceira' de vocês? Queremos saber o que estão ouvindo agora ou o que ouvem sempre, sem cansar.
Humm... Clube da Esquina, Falso Brilhante, Metá Metá, Daft Punk, Naveega, Balangandãs (Ná Ozzetti), Casa da Lua Cheia. Tudo de Gil, Milton, Caetano, Chico, Guinga, Edu, Tom,Tom Zé, Macalé, Ilessi, Khrystal... é muita música boa e muita cabeceira.

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Contem mais sobre a campanha no Benfeitoria para o lançamento do CD "Leve o que quiser"?
A campanha foi um sucesso, estamos muito agradecidos a todos que contribuíram, divulgaram, apostaram e vibraram com a gente. É muito significativo conseguir levantar uma grana de forma colaborativa no mundo de hoje. E ter um CD com mais de 300 patrocinadores é demais! Não podemos deixar de elogiar a galera que trabalha no Benfeitoria. Totalmente atenciosos, vibrando com a gente, torcendo, ajudando. Foi uma baita experiência.

Qual a percepção de vocês sobre o crowdfunding? Vocês já colaboraram em outros projetos?
As plataformas colaborativas abrem a possibilidade de uma construção artística de uma forma democrática. Feita pelas mãos exatamente de quem não aguenta mais esses discursos enlatados que o mercado fonográfico - como todo mercado cultural - nos impõe. É um possibilidade de dar voz a discursos artísticos e culturais em meio a um mercado vendido e falido. Já colaboramos em outros CDs, como o Emaranhado, do André Muato, Mohandas, Novíssimos, Tupi Balboa, além de filmes e peças de teatro.

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Vocês acabaram de ganhar o WebFestValda, como foi essa experiência de tocar no Circo Voador e ainda sair com dois prêmios, para a banda e vocalista?
Nos inscrevemos no festival de última hora. O desafio de subir no palco do Circo, num festival de bandas grandes, com uma formação tão pequena (voz, violão e percussão). Era desfiador e tentador ao mesmo tempo. "Simbóra, vamos colocar o vídeo! O máximo que pode acontecer é a gente passar e ter que tocar no Circo, em trio". E deu no que deu. Tocar lá é sempre muito estimulante. A casa cheia todos os dias, com um público extremamente caloroso e depois de tudo ainda ser premiado em meio a tantas bandas boas foi muito especial. Aliás, o festival proporcionou grandes encontros. A organização foi muito acolhedora e atenciosa com todos nós. E esses "10.000 em instrumentos" vieram num momento oportuno, agora é aproveitar os novos timbres pro CD e botar a mão na massa!!

Quais os próximos projetos do Pietá? O que vocês estão planejando para o futuro?
O projeto mais importante agora é a gravação do nosso primeiro CD, que está previsto pro comecinho do ano que vem. A pré-produção ja está a mil e falta pouco pra gente entrar no estúdio! Estamos ansiosos! Com o "Leve o que quiser" em mãos, pretendemos rodar muito. E continuamos programando shows, pensando em viajar e fazer aparições fora do Rio também. Natal é a nossa segunda casa, Floripa está armado para outubro, Minas é sempre uma possibilidade e São Paulo está na mente. No Rio, temos shows marcados para os dias 22, 25 e 27 de setembro, e 08 e 31 de outubro. Além de uma deliciosa ideia em que nós 5 estamos envolvidos: a montagem de um espetáculo infantil que mistura teatro, dança, música e vídeo. A Juliana encabeça como diretora, o Fred assume a direção musical, a Clarice é a dramaturga, o Lucas é responsável pela projeção de vídeo e o Rafael é ator ao lado de outros 5 maravilhosos atores. Esse projeto tem nos motivado e renovado a cada ensaio.

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Fonte: Projeto Pietá
Fotos: 1 - Carolina Vianna; 2 - Jerimundo Filmes; 3 - Marlon de Paula; 4 - Clarice Lissovsky; 5 - Dudu Mafra Lino; 6 e 8 - Bel Acosta; 7 - Divulgação.

 

 

 

 

 

 

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