Entrevistas

Ramiro.zwetsch

Ramiro Zwetsch é jornalista e editor do site musical Radiola Urbana. Já colaborou com as revistas Bravo!, Bizz e Rolling Stone, além de trabalhar nos programas Metrópolis e no Caderno Variedades do Jornal da Tarde. Nas horas vagas, dedica-se também a discotecagens com objetivos muito parecidos com os de seus textos: desvendar sons e espalhar conhecimento. Seu repertório concentra-se no groove – seja ele caribenho, brasileiro, norte-americano ou africano. Atualmente só toca vinil e dedica-se especialmente à pesquisa de afrobeat – gênero africano que, influenciado pelo funk norte-americano, foi desenvolvido pelo nigeriano Fela Kuti e escancarou uma cena fértil em toda África ao longo dos anos 70.     

Como jornalista você já atuou em importantes canais de comunicação, além disso é um apaixonado por música. Conte um pouco sobre sua trajetória profissional e o projeto Radiola Urbana. 

Me formei em jornalismo em 1998 (PUC-SP) e comecei a discotecar em festas por volta de 1994 (justamente junto com o primeiro ano de faculdade). Meus pais são também jornalistas e muito ligados em música, então a infância e a adolescência foram sempre às voltas com LPs. Quando comecei a trampar no jornalismo impresso, na revista Istoé Gente (em 1999), iniciei o exercício de escrever sobre música profissionalmente. De lá em diante, passei pela redação do Jornal da Tarde e fui colaborador das revistas como Bravo!, Bizz e Rolling Stone. Em 2004, quando ainda era repórter do JT, tive a vontade de dar vazão a textos que não serviam ao jornal sobre temas ligados a afrobeat, reggae, soul, jazz, rap e música brasileira. Foi aí que criei o site www.radiolaurbana.com.br. Além de publicar meus próprios textos, ganhei colaboradores que escrevem no site até hoje, como o Filipe Luna e o Alê Duarte. Com a Radiola, pude também realizar um sonho antigo de fazer meus próprios programas de rádio. Entre 2005 e 2013, trampei no Metrópolis, o que foi uma grande honra e um aprendizado absurdo. As pessoas com quem trabalhei lá (e muitas continuam no programa até hoje) são de uma seriedade e dedicação impressionantes. Hoje, sou jornalista free-lancer. Colaboro com a Ilustrada (Folha de São Paulo) e com a enciclopédia de música do Instituto Itaú Cultural. E tenho meus projetos pessoais. São muitos, mas o principal é o Rotações -- um evento que acontece desde 2012, no Sesc Santana, com a proposta de promover shows de artistas contemporâneos interpretando discos lançados há 40 anos.

Com a Radiola, pude também realizar um sonho antigo de fazer meus próprios programas de rádio. Além de publicar meus próprios textos, ganhei colaboradores que escrevem no site até hoje, como o Filipe Luna e o Alê Duarte. 

Ramiro.zwetsch 2

Conte um pouco sobre sua ligação com a cantora Céu e a influência no show 'Catch a Fire'. 

Conheço a Céu há muitos anos. Não somos íntimos, mas temos muitos amigos em comum e eu acompanho o trampo dela antes mesmo do lançamento do primeiro disco. Lembro que fiz uma matéria com ela em 2004 pro JT, meio que apostando nela como uma das futuras grandes cantoras do Brasil. Deu no que deu! Tive também a honra de escrever o release do segundo disco dela, "Vagarosa". O show do "Catch a Fire" fez parte do projeto 73 Rotações, do qual sou curador junto com o Filipe Luna. Aconteceram 4 shows de releituras de discos de 1973: Céu x "Catch a Fire"; Cidadão Instigado x "Dark Side of the Moon" (Pink Floyd); Fred 04 x "Nelson Cavaquinho"; e Karina Buhr x "Secos & Molhados". Fizemos o convite e ela se animou de primeira. Sabíamos que ela tinha intimidade tanto com o disco quanto com a música jamaicana de um modo geral -- ela gravou "Concrete Jungle" no seu primeiro disco e o reggae é uma referência presente em todo seu trabalho. Fico feliz de ver o show rodando o Brasil, essa é uma ideia da qual me orgulho muito. Mas é bom frisar que minha participação (e do Filipe) se restringiu à ideia e ao convite: dali em diante, todos os méritos são da Céu e da banda; nem comparecemos aos ensaios e nos surpreendemos com o show como qualquer outra pessoa do público.

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Cantora Céu interpreta disco ‘Catch a fire’, de Bob Marley 


Como curador artístico quais são os novos talentos que você identifica na música brasileira? 

Acho que a melhor surpresa da música brasileira dos últimos anos é o grupo Metá Metá. Acho impressionante como eles conseguem filtrar uma tonelada de influências (jazz, punk, Itamar Assumpção, afrobeat, samba, terreiro) e oferecer algo completamente novo e autoral. A Juçara Marçal é uma cantora muito cativante e intensa, o Kiko Dinucci é um dos melhores compositores desta geração (além de surpreender como violonista e guitarrista) e o Thiago França é um dos instrumentistas mais dedicados e inovadores que eu vejo tocar e gravar atualmente. A soma destas personalidades dá uma liga incrível no Metá Metá. Sou fã também dos outros projetos que eles tocam paralelamente (e são muitos): Passo Torto, "Encarnado", Sambanzo, Charanga, "Malagueta"... Esse núcleo de criação será lembrado como um dos acontecimentos da música brasileira de atualmente, tenho certeza absoluta!

 

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Metá Metá tem um repertório com várias canções inéditas, de compositores contemporâneos
 

Se você pudesse escolher um disco nacional para ouvir a vida toda, qual seria? Existe algum segredo para que uma música específica perpasse por gerações? 

Wow! Que perguntas! Quando penso em um disco brasileiro, somente um, tendo a escolher o 'Tábua de Esmeralda', do Jorge Ben. Acho impressionante a combinação de letras surreais ou apaixonadas, o balanço e a afinação específica do violão e toda a inspiradíssima instrumentação do disco. Não por acaso, foi eleito pela Radiola Urbana o melhor disco de todos os tempos em uma eleição que fizemos em 2007. Mas sou fã também de muitos outros discos brasileiros, de 'João Gilberto' (1973) a 'Sobrevivendo no Inferno' (Racionais MC's), de 'Jards Macalé' (1972) a 'Coisas' (Moacir Santos). Sobre esse 'segredo de longevidade' aí, eu jamais ousarei palpitar sobre os motivos que levam a isso, mas acho que tem a ver com inspiração.

Mulatu Astatke, Jackie Mittoo, JBs, Tim Maia, Fela Kuti, Skatalites, Wilson das Neves, The Meters, Spanky Wilson, Orlando Julius, Ray Barreto, Mandrill, Som Três, Daktaris, Willie Bobo, Jorge Ben, Aretha Franklin, Mongo Santamaria e Gal Costa, entre muitos outros, frequentam os toca-discos de Ramiro para fazer a pista ferver sem cair no óbvio. 

O cenário atual da música mudou nos últimos anos, temos muito mais acesso à informação, o mercado está mais fragmentado, com mais nichos. Como você vê esse novo mercado fonográfico? Atualmente é mais fácil viver de música? 

Não sei se é mais fácil viver de música hoje em dia. Tenho impressão que a galera que faz o tipo de música que eu gosto (Emicida, Bixiga 70, Curumin, Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz, Rodrigo Campos etc...) é mais livre no processo criativo sem ter muito compromisso com as multinacionais, liberando ou não sua arte na internet, correndo com as próprias pernas para fechar shows etc. Mas isso é, sinceramente, apenas uma impressão. E sei que esse povo rala pra caramba pra pagar as contas e administrar o saldo negativo, pode ter certeza disso!

 

 Fotos: 1 e 2  Arquivo Pessoal; 3 Radiola Urbana, 4 Divulgação. 
 

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