Entrevistas

The Baggios 4

A The Baggios é formada pelo dueto Julio Andrade, guitarras e voz e Gabriel Carvalho, na bateria. Eles completaram dez anos de carreira com uma turnê comemorativa, que passou por mais de 30 cidades do Brasil. Os Baggios tem três EPs e dois e álbuns lançados, que os colocaram entre as principais bandas da música brasileira. O primeiro álbum, de 2011 que tem o nome da banda, foi bem avaliado pela crítica nacional e internacional, marcou presença em diversas listas de melhores do ano. Depois veio o "Sina", em 2013, com letras baseadas em personagens folclóricos de uma cidade do interior. Agora eles lançam o CD e DVD "10 anos Depois", com 22 músicas que passeiam por diversas fases e ritmos. O álbum foi gravado ao vivo, num dos shows mais emocionantes da carreira da dupla e reuniu músicos que fizeram parte da história da banda. 

Ser autêntico na música é nunca se cansar de pesquisar, não ter medo de reinventar e buscar algo novo que realmente some com a música global.
A The Baggios nasceu em São Cristóvão, uma cidade que respira cultura, a quarta mais antiga do Brasil. Como foi que tudo começou?
Poucas pessoas do meu ciclo de amizade se interessavam em montar banda de rock em 2004 , isso foi um dos principais motivos de surgirmos como um duo. Não tivemos muitas chances de nos apresentar na cidade também, nestes dez anos só tivemos a oportunidade de nos apresentar quatro vezes em São Cristóvão. Hoje, quem mora aqui precisa ir até Aracaju para nos assistir, infelizmente. Enquanto a banda estava nascendo, São Cristóvão se despedia do FASC (Festival de Artes de São Cristóvão), uma das maiores manifestações culturais do nordeste. Foi algo muito triste, pois o via como uma grande vitrine  e ao mesmo tempo oferecia a população oportunidade de assistir a  grandes nomes da música brasileira e conhecer  novos artistas. Lamentamos o buraco que a política suja está cavando para essa querida cidade. Nossas músicas sempre tiverem referências a essa vivência interiorana e me inspiro em  personagens que pude conhecer em vida, como "Baggio",  o músico andarilho que deu nome a banda; o "Leão" e o "Zorrão", que tiveram histórias tristes e curiosas. 
 
The Baggios 1
 
Qual a história do nome da banda? Por que The Baggios?
Busquei um nome que tivesse ligação com o clima de uma cidade que vivo. Desde guri eu admirei um figura que passeava vestindo roupas esquisitas e uma viola no ombro, cheio de histórias pra contar, ele era conhecido como: Baggio.  Era um músico romântico que buscou o estrelato em Salvador e São Paulo nos anos 70, mas as coisas não saíram como planejado e ele voltou para São Cristóvão, total riponga e com esse novo comportamento. Reza a lenda que ele ficou perturbado depois uma macumba de uma sogra inconformada com o namoro de sua filha com ele. Outros dizem que foi a frustração somada ao excesso de drogas, mas eu via nele um grande sonhador. Prestamos essa homenagem e eu sempre tive essa impressão de estar dando continuidade a um sonho não alcançado de cara humilde, talentoso, que não teve sorte e (ou) oportunidade. Ele ficou empolgado quando soube da existência da banda em 2006 e nessa mesma época produzi, junto com o jornalista Diego Oliveira, um documentário sobre sua história, chamado "Baggio Sedado". No vídeo abaixo, retirado do doc, toco com ele uma música de sua autoria.
 
 
Como está a The Baggios, dez anos depois? Como é olhar para trás e ver o caminho percorrido, os perrengues, as conquistas, a história construída? 
Estamos bem, o saldo é positivo nesses dez anos. Confesso que não imaginava chegar tão longe tocando rock em Sergipe e valorizo a cada acontecimento dessa história. Inicialmente só queríamos fazer músicas para nos agradar e agradar nossos amigos, mas o tempo foi um grande amigo e nos mostrou grandes possibilidades. Foi tudo muito lento, mas acho que isso fez com que déssemos valor a cada passo . Entre 2004 e 2006 tocávamos em festas  para 50 pessoas, depois passamos a tocar para um público de 200 a 400 pessoas e em 2008 tivemos nossa primeira experiência de grande público, abrindo o show do Paralamas do Sucesso. Foi desafiador tocar para mais de 20 mil pessoas pela primeira vez, aos poucos estávamos ganhando espaço no Estado. Com o passar dos anos vieram resenhas positivas dos EPs, os primeiros convites para shows fora de Sergipe, o lançamento dos  álbuns e com isso as resenhas em dezenas de sites e revistas e, consequentemente, os convites para tocar  em lugares e festivais consagrados.
 
Vocês tocam blues, rock, agregam o regionalismo no som e criam uma identidade própria. Ou seja, vocês seguem algumas referências, mas se mantém autênticos. Quem são essas referências e como não perder o estilo próprio?
Desde o início da banda  que escuto muito blues raíz, blues elétrico, rock 60 e 70,  mas acho que o grande responsável pelo diferencial do que fazemos é a música brasileira, a própria língua portuguesa é uma grande aliada, pois nos oferece infinitas possibilidades de melodias. Em algumas resenhas citam influências que realmente curto, como Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Alceu Valença, Zé Ramalho e Raul. É difícil pra caramba falar de nomes que me influenciam, porque eu pesquiso e escuto muita coisa mesmo e trato tudo o que eu ouço como uma influência, desde Skip James, Arnaud Rodrigues, Os Tincoãs, Jorge Ben, Tim Maia e bandas mais modernas como: Jack White, o Mutemath, Buffalo Killers, Daniel Norgren e assim vai.
 
The Baggios 2
 
Quais os principais palcos por onde a The Baggios já passou e os shows mais marcantes para vocês?
Em Sergipe, a gravação do nosso DVD no Teatro Atheneu foi o show mais emocionante que fizemos. Fora do Estado que marcaram muito foram:  Festival Dosol (RN), Feira da Música em Fortaleza (CE), Porto Musical (PE), Festival Goiânia Noise (GO), Sesc Pompeia (SP), Porão do Rock (BSB). Com certeza esqueci alguns, mas sempre lembro de quase todos.
 
Vocês lançaram, pelo canal da banda no YouTube, um Mini Doc com a Pitty. A internet dá um pouco mais de autonomia para as bandas, que estabelecem um contato direto com o público e de forma independente. Vocês estão explorando bastante isso?
Sim, a internet é essencial. Seja para lançar um clipe, o cartaz de uma turnê, um single ou disco. Além de nos possibilitar a interação com gente de todo o mundo, ainda facilita o agendamento dos nossos shows. Essa experiência que tivemos com a Pitty é um exemplo, partiu de uma entrevista que ela deu para um site citando os Baggios como um dos  principais nomes do rock atual. Semanas depois tocamos no mesmo festival em Brasilia, ela nos viu ao vivo e acabou falando bem no Twitter, quando vi que tocaríamos juntos em Sergipe este ano, trocamos uma ideia pela net  e acertamos uma Jam. Tudo graças à internet.
 
 
Como é viver de música no Brasil hoje? Como se manter no cenário musical sem estar no eixo Rio-São Paulo?
Já tá na cabeça que eu amo fazer isso e tenho que me virar para dar o meu melhor e fazer o possível para que nossa música circule e chegue nas pessoas, mas claro que precisamos de uma força sempre. Muita coisa precisa melhorar pra viver despreocupado com as contas pendentes, não é fácil fechar shows com boas condições, montar turnês que rentáveis, mas isso tem melhorado a cada ano e vamos seguindo, devagar e sempre. Eu converso sobre isso com vários amigos do Rio e São Paulo e as dificuldades são praticamente as mesmas. É difícil do mesmo jeito viver de música no Sudeste ou Nordeste. Sempre tem um dando um jeitinho de ganhar um trocado extra com mais de uma banda ou fazendo voz e violão em barzinho e até fazendo algo paralelo à música para se manter. Quando se fala em fazer show fora do seu estado, São Paulo tem mais vantagens de ter mais passagens baratas para boa parte do Brasil, tem a grande mídia, mais  possibilidades de casas de shows, festivais e tudo mais. Mas quero dizer que a gente consegue chegar até eles, mesmo morando no nordeste, às vezes vejo bandas que moram no sudeste que tem até mais dificuldades de circular que nós. Sei lá, acho que é difícil para todo mundo.
 
Quais os planos para os próximos dez anos? Tem turnês programadas, festivais, shows pelo Brasil? O que vem por aí?
Poh, quero ter lançado mais uns cinco álbuns e ter circulado por todos os continentes daqui há dez anos (risos). Entre julho e setembro pretendemos fazer cerca de 20 shows pelo nordeste, sudeste e sul do país. Alguns já estão fechados e outros em negociação. Entre novembro e dezembro faremos a nossa primeira turnê gringa pela América Latina. Temos shows marcados no México e pretendemos fazer alguns pela Argentina, Chile e Uruguai. 
 
Qual é a “Sina” da The Baggios?
Viver a música. 
 
The Baggios 3
 

 

Fonte: The Baggios
Fotos: 1 e 2 - Snapic Fotografias; 3 - Thiago Souza.

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